A metamorfose de um batimento

março 11, 2026
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Por Ana Carolina Eiris

Cérebros brilhantes também podem produzir grandes sofrimentos. É preciso educar corações” (Dalai Lama)

O tempo é o grande ator da terapia intensiva, quando estamos rodeados de ações, protocolos, metas, prescrições o que rege cada escolha é de fato o tempo.

O tempo de sepse

O tempo de cada antibiótico

O tempo do acesso venoso

O tempo de validade da prescrição

O tempo para o próximo passo

O tempo de cada coração, tic tac, tic tac

Até quando vamos esperar para entender que é o tempo do paciente que rege tudo e nada mais?

O grande desafio do Centro de Terapia Intensiva (CTI) é descobrir a hora certa de frear, não digo parar visto que de fato nunca paramos. Até quando é entendido que é o fim ainda há muito o que se fazer. Mas a realidade é que não conseguimos parar porque quando nos deparamos com o fim, não sabemos o que fazer, a não ser tentar salvar.

Quantas vezes nos vemos na enorme meia lua em torno do paciente, médicos, fisioterapeutas, técnicos e enfermeiros, avaliando e discutindo sobre a grande curva hemodinâmica, valores, números, possíveis ações, meta de PAM, meta de temperatura, meta de diurese… e no meio disso por vezes a família com olhares de medo e completo desconhecimento? E, quando isso é notado, damos a famosa batidinha em seu ombro e dizemos, entre termos enxutos disfarçados com eufemismos, o famoso “vai ficar tudo bem”.

Quando trabalhei na cirurgia cardíaca, receber aquele paciente era uma grande emoção, fios, drenos, marcapassos, metas terapêuticas e ação de poder colocar em prática tamanho conhecimento adquirido. É extremamente animador e emocionante ver a hemodinâmica do paciente acontecendo no ato, na sua frente.

Quando eu assistia a cirurgia no centro cirúrgico então… tudo fazia sentido. O porquê de ordenhar os drenos, a importância do tempo de CEC e CLAMP, como implantar um marca-passo epicárdico, eram tantos cuidados…

Lembro da primeira vez que vi um coração pulsante na minha frente, subi na cadeirinha do anestesista e ali vi o que sempre me trouxe significado quanto enfermeira: o coração dos pacientes.

Ao voltar com eles no pós-operatório, o cuidado foi afinando cada vez mais, atenção à diurese, a ordenha de drenos na primeira hora, a frequência cardíaca, cuidado com a posição do dreno!

Mas eu nunca me esquecia de um detalhe muito importante: ao chegar ao leito, sussurrava no ouvido dos pacientes “Oi Sr(a) … , aqui é a Enfª Ana, o senhor(a) já chegou no CTI, está bem? A cirurgia correu bem e agora vamos cuidar do senhor(a). O(a) senhor(a) vai ouvir muita gente em volta, mas é gente boa cuidando de você.”

Em resposta, alguns balançavam a cabeça como um sim, outros abriam os olhos com um pouco de medo, outros choravam, e houve até casos que o tubo não impedia o sorriso. 

Lembro de um caso no qual o paciente voltou da cirurgia em estado grave, cada ordenha do dreno podia salvar sua vida, não podíamos sair do seu lado. E a todo momento isso era lembrado a ele na ponta do ouvido. Dias depois, após receber alta para casa, quando ele retornou para reabilitação cardíaca, bateu na porta do CTI e me fez recordar das boas palavras que ouviu, com emoção em seus olhos.

Quando falo que os pacientes nos escutam, independentemente de como estejam, isso é uma verdade. Mas, só é possível acreditar se você confia em seu cuidado para além da sua mente.

“Cérebros brilhantes também podem produzir grandes sofrimentos. É preciso educar corações” – Dalai Lama

Sim, causamos sofrimento na busca incessante de curar vidas. Assumir isso nos torna cada vez mais lúcidos e responsáveis pelas nossas ações. Na cirurgia cardíaca presenciei muito sofrimento, o que podemos evitar?

Um estudo guarda-chuva de revisão sistemática publicado no Journal of American Heart Association (JAHA) em 2024 observou que levar o paciente a ponto de passar por um procedimento invasivo indica falha do tratamento clínico. Onde estamos errando? Por que levamos tanto tempo para enxergar o nosso paciente? Por que ele precisa estar em um CTI, com dor, entre fios e o tum-tá dos monitores para conseguir ouvirmos seus reais desejos e necessidades? (6,7)

São perguntas que foram surgindo em mim durante esses anos de plantão, e isso me levou a me encontrar nos cuidados paliativos. Que louco… o CTI, o reino das causas achadas, o dono de todas as perguntas sem respostas, aborda cuidados paliativos? Como assim?

Pois é, foi entre conversas difíceis, prontuários afetivos preenchidos, orações à beira leito, terços rezados, corações de papel espalhados que eu entendi o real sentido do tempo para essas pessoas. O tempo era esperança.

Levei São Longuinho na touca de uma paciente que só disse que operaria se o santo fosse ele fosse com ela. Consegui fazer que o senhor sentisse a sua juventude de novo ao ouvir The Pretenders – Back on the Chain Gang. Atendi ao pedido e botei para tocar A Estrada, do Cidade Negra, e ouvi com felicidade, que com fé no dia a dia ele encontrou a solução em se cuidar mais Consegui que a nutricionista realizasse o desejo dele comer melancia mais uma vez depois de muito tempo sem poder. Evitei que os pais se desesperassem ao ver o leito da sua filha vazio, porque tinha ido ao centro cirúrgico às pressas para resolver uma intercorrência. Permiti que mãe e filha pudessem se despedir do marido e pai que, depois de meses sofrendo naquele leito, em seu momento final abriu um sorriso. Entendi o recado, e lhes dei privacidade, ele se foi horas depois…

Enxergar os cuidados paliativos num CTI pós-operatório é como uma rachadura no centro da sala: não está escondida debaixo de um tapete, está bem no meio do chão, mas todos desviam o passo para não ter que olhar para baixo. Esse caminho é solitário.

Só não é tão sozinho quando você tem a melhor dupla de todas, o paciente. E é neles que o trabalho deve sempre ser focado. Por isso é preciso dar um passo para trás para dar dois à frente. 

É necessário entender a linha de cuidado do paciente cardíaco, e observar o que é feito antes dele precisar de uma cirurgia. E nisso entende-se que nosso sistema de saúde, apesar de ter uma estrutura boa e com muito potencial, ainda falha por não abraçar as fragilidades da sociedade.

Muitos moram longe dos ambulatórios, sem dinheiro para manter o tratamento medicamentoso, o trabalho pesado que precisa manter para bancar sua família, as necessidades mentais que deixam de lado para se manter fortes para o dia seguinte… e quando vão às consultas os metralhamos com o que devem fazer.

“Compra isso, toma isso, tem que se exercitar, hein! Não acredito que não está fazendo o que orientei…”

Na sala de espera dos ambulatórios pude ver suas reais necessidades. Não é fácil, mas também não é impossível. Entender (e enxergar) os determinantes sociais de saúde de cada indivíduo é a grande resposta para estar atento ao que ele precisa. 

As doenças cardiovasculares são as que têm maior taxa de mortalidade no Brasil e no mundo. Visto isso, o que mais tivemos nos últimos 50 anos foi o desenvolvimento de tecnologias que puderam aumentar a estimativa de vida desses pacientes, mas a taxa de sofrimento em vida é grande. Vive-se mais, mas vive-se mal.(1)

Foi visto que a sua maior causa é o manejo inadequado dos sintomas, que muito está associado a má adesão ao tratamento, medicamentoso e não medicamentoso. O qual, depende diretamente do conhecimento do paciente sobre sua doença. (2,4)

Ou seja… a ação, apesar de simples, tem alto impacto. Precisamos educar o nosso paciente. Ensinar, nesse caso, o que é o coração, quais suas doenças, quais os melhores hábitos, como ele deve enxergar seu corpo, como ele deve atuar quando os sinais de alerta chegam, a importância de tomar cada remédio, a importância de se exercitar, comer bem e como ele pode fazer isso. (4)

Me lembro do paciente que me disse que não tinha dinheiro para academia e por isso dava 10 voltas ao entorno de sua casa todos os dias, “o importante é movimentar o esqueleto”. Seja da forma que for, a resposta está em empoderar o indivíduo para que ele tome seus próprios cuidados, e não jogar em seu colo escolhas que ele não tem embasamento para fazer.

E nosso papel é mostrar a ele as possíveis alternativas, os possíveis desfechos, entender o que ele compreende e como seus valores se encaixam nisso, como ele quer seguir com sua vida. Para que quando uma cirurgia cair em seu peito, ele possa saber seus limites, e toda equipe multiprofissional estar ciente disso.

Mas, para chegarmos nesse ponto ainda há muita estrada a percorrer e sementes a plantar. Na residência consegui construir uma espécie de cartilha que auxiliava os pacientes a reconhecer e controlar seus sintomas em casa e na qual eles ainda pudessem anotar a quantidade de água, seu peso e possíveis outros sintomas que surgissem nos meses sem consultas. Uma semente foi plantada.

Isso é considerado pela atual Política Nacional de Cuidados Paliativos como Cuidado Paliativo Primário ou Precoce, porém dar nome a tudo ainda é complicado. Precisamos tirar o preconceito do nome e ainda atuar na ponta. (3)

Por isso não canso de espalhar corações, abraços, prontuários afetivos, brigar com o termo cuidados proporcionais e permitir que famílias abram seus corações (em metáfora), até por que é sempre bom ouvir a voz de quem amamos, não é?

E para nós, paliativistas fervorosos, daqueles nascidos na terapia intensiva, não há valor melhor que o tempo do coração. Porque a cada tum-tá, é uma oportunidade real de viver.


Ana Carolina Eiris é enfermeira, graduada pela Universidade Federal Fluminense, cardiointensivista pelo Programa de Residência em Enfermagem Cardiovascular da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Colabora do Movimento Slow Medicine Brasil. Atual nos Cuidados Paliativos e gestão de processos com foco na experiência do paciente. Tem como hobbies a música, leitura, escrita, ama se exercitar e ouvir histórias.


REFERÊNCIAS

  1. Altivo MLP. Perfil epidemiológico e análise clínica de pacientes portadores de insuficiência cardíaca crônica atendidos em ambulatório de cardiologia. Brazilian Journal of Development. 2022 Sep;8(9):62581-62591. Disponível em: https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BRJD/article/view/52117 [SM Cirurgi…e CP.docx | Word]
  2. Bohula et al. Palliative and End-of-Life Care During Critical Cardiovascular Illness: A Scientific Statement From the American Heart Association. Circulation. 2025;151:e1075–e1090. Disponível em: https://www.ahajournals.org/doi/10.1161/CIR.0000000000001334 [SM Cirurgi…e CP.docx | Word]
  3. Brasil. Portaria GM/MS nº 3.681, de 7 de maio de 2024. Institui a Política Nacional de Cuidados Paliativos – PNCP no âmbito do Sistema Único de Saúde – SUS. Diário Oficial da União. 2024 maio 22; seção 1:215. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-gm/ms-n-3.681-de-7-de-maio-de-2024-561223717 [SM Cirurgi…e CP.docx | Word]
  4. Pinto MG, et al. Doenças cardiovasculares em um aspecto na saúde coletiva: revisão de literatura. Revista CPAQV – Centro de Pesquisas Avançadas em Qualidade de Vida. 2024;16(1). [SM Cirurgi…e CP.docx | Word]
  5. Rohde LEP, et al. Comitê Coordenador da Diretriz de Insuficiência Cardíaca. Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda. Arq Bras Cardiol. 2018;111(3):436-539. [SM Cirurgi…e CP.docx | Word]
  6. Teshale et al (a). Social Determinants of Cardiovascular Health: understanding their impact and transitioning to a holistic care approach. European Heart Journal. 2024;45:1582–1585. [SM Cirurgi…e CP.docx | Word]
  7. Teshale AB et al. (b) The role of social determinants of health in cardiovascular diseases: an umbrella review. Journal of the American Heart Association. 2023;12(13). DOI: 10.1161/JAHA.123.029765. Disponível em: https://doi.org/10.1161/JAHA.123.029765

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Ellen
Ellen
13 horas atrás

Tenho orgulho de ter tido a honra de poder trabalhar com essa pessoa incrível, Ana um exemplo de enfermeira, humana, inteligente, professora… Enfim top.
Tenho a ti como exemplo.

fabiana.rln9721@gmail.com
13 horas atrás
fabiana.rln9721@gmail.com
13 horas atrás

Em cada tum-ta de nossos pacientes, há em nós a alegria imensa de estar alí junto aos cuidados.
É sempre um imenso prazer estar a beira leito com profissionais incríveis como vc Ana, cada banho, cada troca, é único..

Amanda Dâmaso
Amanda Dâmaso
10 horas atrás

Que orgulho em trabalhar com você e poder ver você fazendo a diferença na beira do leito. Levando sua experiência para todos nós, plantando a cada dia essa semente, que hoje já brota nas nossas unidades. Parabéns!

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