
Por Ana Carolina Eiris
“Cérebros brilhantes também podem produzir grandes sofrimentos. É preciso educar corações” (Dalai Lama)
O tempo é o grande ator da terapia intensiva, quando estamos rodeados de ações, protocolos, metas, prescrições o que rege cada escolha é de fato o tempo.
O tempo de sepse
O tempo de cada antibiótico
O tempo do acesso venoso
O tempo de validade da prescrição
O tempo para o próximo passo
O tempo de cada coração, tic tac, tic tac
Até quando vamos esperar para entender que é o tempo do paciente que rege tudo e nada mais?
O grande desafio do Centro de Terapia Intensiva (CTI) é descobrir a hora certa de frear, não digo parar visto que de fato nunca paramos. Até quando é entendido que é o fim ainda há muito o que se fazer. Mas a realidade é que não conseguimos parar porque quando nos deparamos com o fim, não sabemos o que fazer, a não ser tentar salvar.
Quantas vezes nos vemos na enorme meia lua em torno do paciente, médicos, fisioterapeutas, técnicos e enfermeiros, avaliando e discutindo sobre a grande curva hemodinâmica, valores, números, possíveis ações, meta de PAM, meta de temperatura, meta de diurese… e no meio disso por vezes a família com olhares de medo e completo desconhecimento? E, quando isso é notado, damos a famosa batidinha em seu ombro e dizemos, entre termos enxutos disfarçados com eufemismos, o famoso “vai ficar tudo bem”.
Quando trabalhei na cirurgia cardíaca, receber aquele paciente era uma grande emoção, fios, drenos, marcapassos, metas terapêuticas e ação de poder colocar em prática tamanho conhecimento adquirido. É extremamente animador e emocionante ver a hemodinâmica do paciente acontecendo no ato, na sua frente.
Quando eu assistia a cirurgia no centro cirúrgico então… tudo fazia sentido. O porquê de ordenhar os drenos, a importância do tempo de CEC e CLAMP, como implantar um marca-passo epicárdico, eram tantos cuidados…
Lembro da primeira vez que vi um coração pulsante na minha frente, subi na cadeirinha do anestesista e ali vi o que sempre me trouxe significado quanto enfermeira: o coração dos pacientes.
Ao voltar com eles no pós-operatório, o cuidado foi afinando cada vez mais, atenção à diurese, a ordenha de drenos na primeira hora, a frequência cardíaca, cuidado com a posição do dreno!
Mas eu nunca me esquecia de um detalhe muito importante: ao chegar ao leito, sussurrava no ouvido dos pacientes “Oi Sr(a) … , aqui é a Enfª Ana, o senhor(a) já chegou no CTI, está bem? A cirurgia correu bem e agora vamos cuidar do senhor(a). O(a) senhor(a) vai ouvir muita gente em volta, mas é gente boa cuidando de você.”
Em resposta, alguns balançavam a cabeça como um sim, outros abriam os olhos com um pouco de medo, outros choravam, e houve até casos que o tubo não impedia o sorriso.
Lembro de um caso no qual o paciente voltou da cirurgia em estado grave, cada ordenha do dreno podia salvar sua vida, não podíamos sair do seu lado. E a todo momento isso era lembrado a ele na ponta do ouvido. Dias depois, após receber alta para casa, quando ele retornou para reabilitação cardíaca, bateu na porta do CTI e me fez recordar das boas palavras que ouviu, com emoção em seus olhos.
Quando falo que os pacientes nos escutam, independentemente de como estejam, isso é uma verdade. Mas, só é possível acreditar se você confia em seu cuidado para além da sua mente.
“Cérebros brilhantes também podem produzir grandes sofrimentos. É preciso educar corações” – Dalai Lama
Sim, causamos sofrimento na busca incessante de curar vidas. Assumir isso nos torna cada vez mais lúcidos e responsáveis pelas nossas ações. Na cirurgia cardíaca presenciei muito sofrimento, o que podemos evitar?
Um estudo guarda-chuva de revisão sistemática publicado no Journal of American Heart Association (JAHA) em 2024 observou que levar o paciente a ponto de passar por um procedimento invasivo indica falha do tratamento clínico. Onde estamos errando? Por que levamos tanto tempo para enxergar o nosso paciente? Por que ele precisa estar em um CTI, com dor, entre fios e o tum-tá dos monitores para conseguir ouvirmos seus reais desejos e necessidades? (6,7)
São perguntas que foram surgindo em mim durante esses anos de plantão, e isso me levou a me encontrar nos cuidados paliativos. Que louco… o CTI, o reino das causas achadas, o dono de todas as perguntas sem respostas, aborda cuidados paliativos? Como assim?
Pois é, foi entre conversas difíceis, prontuários afetivos preenchidos, orações à beira leito, terços rezados, corações de papel espalhados que eu entendi o real sentido do tempo para essas pessoas. O tempo era esperança.
Levei São Longuinho na touca de uma paciente que só disse que operaria se o santo fosse ele fosse com ela. Consegui fazer que o senhor sentisse a sua juventude de novo ao ouvir The Pretenders – Back on the Chain Gang. Atendi ao pedido e botei para tocar A Estrada, do Cidade Negra, e ouvi com felicidade, que com fé no dia a dia ele encontrou a solução em se cuidar mais Consegui que a nutricionista realizasse o desejo dele comer melancia mais uma vez depois de muito tempo sem poder. Evitei que os pais se desesperassem ao ver o leito da sua filha vazio, porque tinha ido ao centro cirúrgico às pressas para resolver uma intercorrência. Permiti que mãe e filha pudessem se despedir do marido e pai que, depois de meses sofrendo naquele leito, em seu momento final abriu um sorriso. Entendi o recado, e lhes dei privacidade, ele se foi horas depois…
Enxergar os cuidados paliativos num CTI pós-operatório é como uma rachadura no centro da sala: não está escondida debaixo de um tapete, está bem no meio do chão, mas todos desviam o passo para não ter que olhar para baixo. Esse caminho é solitário.
Só não é tão sozinho quando você tem a melhor dupla de todas, o paciente. E é neles que o trabalho deve sempre ser focado. Por isso é preciso dar um passo para trás para dar dois à frente.
É necessário entender a linha de cuidado do paciente cardíaco, e observar o que é feito antes dele precisar de uma cirurgia. E nisso entende-se que nosso sistema de saúde, apesar de ter uma estrutura boa e com muito potencial, ainda falha por não abraçar as fragilidades da sociedade.
Muitos moram longe dos ambulatórios, sem dinheiro para manter o tratamento medicamentoso, o trabalho pesado que precisa manter para bancar sua família, as necessidades mentais que deixam de lado para se manter fortes para o dia seguinte… e quando vão às consultas os metralhamos com o que devem fazer.
“Compra isso, toma isso, tem que se exercitar, hein! Não acredito que não está fazendo o que orientei…”
Na sala de espera dos ambulatórios pude ver suas reais necessidades. Não é fácil, mas também não é impossível. Entender (e enxergar) os determinantes sociais de saúde de cada indivíduo é a grande resposta para estar atento ao que ele precisa.
As doenças cardiovasculares são as que têm maior taxa de mortalidade no Brasil e no mundo. Visto isso, o que mais tivemos nos últimos 50 anos foi o desenvolvimento de tecnologias que puderam aumentar a estimativa de vida desses pacientes, mas a taxa de sofrimento em vida é grande. Vive-se mais, mas vive-se mal.(1)
Foi visto que a sua maior causa é o manejo inadequado dos sintomas, que muito está associado a má adesão ao tratamento, medicamentoso e não medicamentoso. O qual, depende diretamente do conhecimento do paciente sobre sua doença. (2,4)
Ou seja… a ação, apesar de simples, tem alto impacto. Precisamos educar o nosso paciente. Ensinar, nesse caso, o que é o coração, quais suas doenças, quais os melhores hábitos, como ele deve enxergar seu corpo, como ele deve atuar quando os sinais de alerta chegam, a importância de tomar cada remédio, a importância de se exercitar, comer bem e como ele pode fazer isso. (4)
Me lembro do paciente que me disse que não tinha dinheiro para academia e por isso dava 10 voltas ao entorno de sua casa todos os dias, “o importante é movimentar o esqueleto”. Seja da forma que for, a resposta está em empoderar o indivíduo para que ele tome seus próprios cuidados, e não jogar em seu colo escolhas que ele não tem embasamento para fazer.
E nosso papel é mostrar a ele as possíveis alternativas, os possíveis desfechos, entender o que ele compreende e como seus valores se encaixam nisso, como ele quer seguir com sua vida. Para que quando uma cirurgia cair em seu peito, ele possa saber seus limites, e toda equipe multiprofissional estar ciente disso.
Mas, para chegarmos nesse ponto ainda há muita estrada a percorrer e sementes a plantar. Na residência consegui construir uma espécie de cartilha que auxiliava os pacientes a reconhecer e controlar seus sintomas em casa e na qual eles ainda pudessem anotar a quantidade de água, seu peso e possíveis outros sintomas que surgissem nos meses sem consultas. Uma semente foi plantada.
Isso é considerado pela atual Política Nacional de Cuidados Paliativos como Cuidado Paliativo Primário ou Precoce, porém dar nome a tudo ainda é complicado. Precisamos tirar o preconceito do nome e ainda atuar na ponta. (3)
Por isso não canso de espalhar corações, abraços, prontuários afetivos, brigar com o termo cuidados proporcionais e permitir que famílias abram seus corações (em metáfora), até por que é sempre bom ouvir a voz de quem amamos, não é?
E para nós, paliativistas fervorosos, daqueles nascidos na terapia intensiva, não há valor melhor que o tempo do coração. Porque a cada tum-tá, é uma oportunidade real de viver.
Ana Carolina Eiris é enfermeira, graduada pela Universidade Federal Fluminense, cardiointensivista pelo Programa de Residência em Enfermagem Cardiovascular da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Colabora do Movimento Slow Medicine Brasil. Atual nos Cuidados Paliativos e gestão de processos com foco na experiência do paciente. Tem como hobbies a música, leitura, escrita, ama se exercitar e ouvir histórias.
REFERÊNCIAS
Tenho orgulho de ter tido a honra de poder trabalhar com essa pessoa incrível, Ana um exemplo de enfermeira, humana, inteligente, professora… Enfim top.
Tenho a ti como exemplo.
[email protected]
Em cada tum-ta de nossos pacientes, há em nós a alegria imensa de estar alí junto aos cuidados.
É sempre um imenso prazer estar a beira leito com profissionais incríveis como vc Ana, cada banho, cada troca, é único..
Que orgulho em trabalhar com você e poder ver você fazendo a diferença na beira do leito. Levando sua experiência para todos nós, plantando a cada dia essa semente, que hoje já brota nas nossas unidades. Parabéns!