
“A morte da empatia humana é um dos primeiros e mais reveladores sinais de uma cultura à beira da barbárie.” (Hanna Arendt)
“O médico que só sabe medicina, nem medicina sabe.” Quando li a frase de Abel Salazar, a história da Gabriela* me saltou imediatamente da memória. Alguns anos já tinham se passado, mas a nitidez com que me lembro do olhar magoado e da postura defensiva sugerem que algo importante me foi ensinado ali. Ela era jovem, nem tinha chegado aos 40, e vinha me procurar devido a um câncer de mama bem inicial, nada complicado, e já com uma primeira avaliação feita por um colega oncologista extremamente capacitado. Olhei o relatório dele e sorri, tranquila: “Ahhh, Gabriela, você já passou com o Dr. Fulano, meu trabalho está feito!” Foi aí que veio o olhar. Esmorecido, frustrado. “Espero que não, doutora.” E ela me disse, traduzindo seus olhos em palavras, o que médicos detestariam ouvir: “Eu sei que pra vocês meu caso é simples, é arroz-com-feijão, mas pra mim está sendo muito, muito difícil passar por isso. O seu colega foi educado, me encheu de informações, mas não tem a menor ideia de quem sou eu. Parecia que tinha um vidro blindado entre nós na consulta, se eu desaparecesse de repente da frente dele, ele nem perceberia. Não faria a menor diferença.” Doeu ouvir. Mas certamente foi mais doloroso para ela do que para mim.
Não sei em que curva do caminho nós, médicos, começamos a negligenciar nossa capacidade empática. Pode ter sido muito cedo, ainda nos primeiros anos da faculdade, quando o que se espera de nós é que dominemos uma quantidade insana de informações e dados, sem que necessariamente saibamos o que fazer com eles. Também pode ter sido quando começamos a lidar com o sofrimento humano ali, na beira do leito, sem que ninguém nos guiasse quanto ao medo, a tristeza e a dor que nos apertavam o peito. Aprendemos a vivenciar o sofrimento como um trapezista que faz seus primeiros saltos sem nenhuma rede de proteção. Caímos, nos machucamos, nos quebramos. Em vez de aprendermos a aliviar o sofrimento do outro, nos empenhamos em evitar o nosso: subimos o vidro blindado entre nós e os pacientes. Enterramos, devagar (ou nem tanto), a empatia. Quando (e se) nos damos conta, estamos a um passo da barbárie.
Eu sei, compreende-se. Proteger-se da dor é brutalmente humano. É o que fazemos desde sempre, e seguiremos assim por questões de sobrevivência. Mas há que se ponderar sobre os efeitos colaterais: blindar-se contra a dor também nos blinda contra o amor. Não é possível, para almas humanas, a analgesia sem a anestesia que lhe vem atrelada. Ao nos afastarmos dos pacientes para que sua dor não nos machuque, também nos distanciamos das suas alegrias, dos seus sonhos, das suas forças, das suas vitórias, do seu carinho, da sua beleza. Ao mergulharmos escafandricamente na biologia, nos dados científicos, nas tabelas e gráficos, nos tornamos incapazes de desfrutar dos laços que se desenham entre humanos que precisam uns dos outros, laços estes que fazem nossas vidas transbordarem de significado e valor. A saída para este imbróglio, como sempre, está no caminho do meio. O que precisamos é aprender a equilibrar a racionalidade que aprendemos enquanto médicos e a irracionalidade da qual somos feitos enquanto humanos.
Quando penso nos caminhos possíveis, a Arte sempre aflora como um grande sinaleiro. Difícil de explicar e controversa de se sentir, a Arte é tudo o que para nós, médicos, é desconfortável: heterogênea, imensurável, imprevisível, “impadronizável”. E talvez seja justamente por isso que ela pode nos ajudar a alcançar o equilíbrio: a Arte nos ajuda a viver, nos conforta, nos ensina a lidar melhor com a imperfeição humana. É um ombro, como diz Fernanda Montenegro. Ao ler um livro cuja personagem transita por mundos absurdamente impensáveis para nós, ao vê-la lidar com situações que nem imaginamos serem possíveis, ao caminhar com ela em sua história de vida (mesmo que fictícia), nós nos lembramos do que nos conecta enquanto humanos. Nossa alma é arrebatada de nós, arrancada do corpo, mastigada sem piedade e devolvida em outro formato. A Arte transforma o que somos a ponto de não cabermos mais no que fomos. Ela nos amplia enquanto humanos, e nos lembra do quanto humanos podem ser surpreendentes, encantadores, admiráveis, corajosos, assustadores, bizarros, únicos. A Arte nos devolve o encantamento de ser capaz de cuidar de gente.
A Filosofia, me parece, também se revela uma ferramenta valiosa contra o esmorecimento da empatia. Para Sócrates, filosofar é aprender a morrer. Talvez seja uma ótima ideia para nós, que cuidamos de pessoas que nos procuram justamente porque a possibilidade de morrer as apavora, passear pelo que os filósofos têm a nos ensinar. Os estoicos são meus preferidos nesse quesito: enxergam em virtudes como a temperança, a justiça, a coragem e a resiliência o caminho para se alcançar uma vida mais plena. São essas mesmas virtudes que enxergo nos bons médicos. Mas o que me soa mais estimulante na Filosofia estoica é sua busca incessante e consciente pela sabedoria, a qual para eles tem menos que ver com conhecimento e mais com discernimento. O valor do conhecimento está em saber usá-lo em favor de si e dos outros, e não em acumulá-lo num acervo mental cujo objetivo é o acúmulo em si (ou sua exibição para fins de massagem no ego). Conhecimento que não se traduz em alívio, em benefício, em ajuda é conhecimento inútil – no mínimo, é conhecimento subutilizado. Os estoicos sabem o que dizem.
Além disso, a Filosofia estoica ainda nos oferece como bônus um ótimo conselho: a prática diária da humildade. Através do questionamento constante (do que fazemos, por que fazemos e como fazemos), da abertura ao diálogo e do reconhecimento da nossa própria ignorância nos tornamos mais capazes de permanecer com os pés atarrachados à realidade das pessoas. A humildade nos mantém atentos. Médicos humildes erram menos e se conectam mais, porque não se esquecem dos motivos que os levaram a escolher cuidar dos outros.
Mas talvez a ferramenta mais potente para a preservação da empatia não esteja fora de nós. As experiências significativas que nos atravessam para além do jaleco podem nos trazer de volta a Humanidade que o estetoscópio nos rouba. Falo dos momentos, pessoas, emoções e vivências que nos fazem sentir vivos. A imersão profunda na natureza bruta. A espiritualidade. O convívio com os filhos (e pets). Um trabalho voluntário significativo. Um lugar que nos toca para além do compreensível. Qualquer coisa que inexplicavelmente nos arrebata. Cada um de nós tem isso dentro de si, um “gatilho” para acessar a si mesmo, uma passagem direta para dentro da própria existência. Quando somos capazes de compreender o valor imensurável que esses gatilhos têm e os colocamos como parte inegociável das nossas vidas, o resultado é inevitável: nos tornamos seres humanos mais plenos e felizes. Humanos felizes tendem a enxergar o outro como uma extensão de si.
Nós, médicos, especialistas em corpos humanos, temos deixado muito a desejar no quesito empatia. Vemos o corpo sem atinar para o indivíduo que o carrega. Vemos o exame sem conectá-lo ao significado que ele tem para seu dono. Desconectamos as doenças das pessoas como se isso fosse o que deve ser feito, porque o que aprendemos na faculdade diz respeito à doença e não ao doente. O reconhecimento do humano que habita o corpo nos deixa desconfortáveis, até assustados, e aos poucos aprendemos a ignorar esse incômodo habitante. Isso nos mata um pouco enquanto humanos. A morte da empatia nos empobrece, e isso me parece motivo mais que suficiente para utilizarmos todas as ferramentas disponíveis para evitar essa morte, com o mesmo empenho que tentamos evitar a morte de quem nos procura. A Arte nos torna mais humanos, a Filosofia nos deixa mais humildes, e nossas vivências significativas nos fazem mais felizes. Se chegarmos a experimentar um tempo em que um médico mais humano, mais humilde e mais feliz não seja um médico melhor para as pessoas, talvez seja tempo de decretar nossa falência enquanto espécie e abraçar a barbárie de vez.
*nome fictício
**a imagem que ilustra o texto é da obra Empatia, pintura de Ana Maria Carvallo
Ana Coradazzi: Médica, graduada pela Faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP, com residência médica em Oncologia Clínica e pós-graduada em Medicina Paliativa pelo Instituto Pallium, em Buenos Aires. Atualmente é responsável pela equipe de Oncologia Clínica da Faculdade de Medicina da UNESP, em Botucatu. É autora dos livros No Final do Corredor, O Médico e o Rio (com Lucas Cantadori), De Mãos Dadas: o olhar da Slow Medicine para o paciente oncológico, Slow Medicine: sem pressa para cuidar bem (com André Islabão) e, mais recentemente, O médico sutil.
Texto potente, verdadeiro e muito sensível!!!!!
Obrigada, Angela!
Sensibilidade e humanidade, uma reflexão mais que necessária, não apenas para os profissionais da saúde, mas para todos.
Muito obrigada pelo comentário carinhoso!
Texto muito real! Me senti representada e tenho tentado levar a Arte, a Filosofia e, principalmente a Empatia a frente dos meus atendimentos e como exemplo aos mais jovens!
Voila!
Excelente texto. Uma bela reflexão! Grata por compartilhar.
Perfeito o texto, Ana. Parece que estamos mais preocupados em solicitar exames do que em prestar atenção às pessoas que vem ao nosso consultório. Onde está o olho no olho? Onde está pr3estar atenção ao que a pessoa está nos falando?
Texto maravilhoso
O capitalismo e o mundo amargo nos tornam assim….
Quantas vezes preciso entre um atendimento e outro sair para respirar para não chorar……
E com poucos colegas de trabalho posso partilhar essa dor….pq logo escuto ” vai acabar doente se a cada problema de paciente ficar assim”
E vou seguindo em frente….
Obrigada por vc existir.
Que lindo! Devolveu um brilho aqui em mim que estava se apagando.
Muito oportuno e necessário esse texto sobre esse tema tão importante, mas que parece ter sofrido um desgaste e um certo esvaziamento.
Otimo texto. Nos meus 36 anos de profissão, nunca a dor da impotencia diminuiu minha empatia ou me tornou uma pessoa pior. Estou melhor a cada dia, um “monstro” especialista em reflexão sobre a humanidade e suas diferentes relações. Mas acredito que a personalidade,a competitividade e o ganho monetário estão intimamente relacionados com a empatia. E tem sido dificil sobreviver a essa enxurrada de informações nem sempre verdadeiras, as multiplas demandas das doenças cronicas, das pessoas sofrendo de ansiedade antecipatoria por um mundo rapido, inflexivel, as multiplas fontes exigidas de comunicação, as necessidades de encaixes, de manter um ritmo louco ( pela demanda, pelas contas, e pela remuneração bruta menor que um corte de cabelo, pela informatização não delegada de tudo)…acho o artigo muito bom. Nos conforta. Sou feliz apesar de estar mais idosa que o tempo. Que volte a arte, a filosofia, integrada a ciencia. E que possamos refletir se somos so um reflexo do mundo que escolhemos p chamar de nosso…
Texto maravilhoso. Obrigado Maria do Carmo, por compartilhar 💐
Gostei do seu poste, existe muitos artigos em seu blog relacionado a este que acebei de ler gostei de seu blog. Meu blog: site oficial