
Por Fernando Cinquetti
“A morte e a vida não são contrárias, são irmãs. A reverência pela vida exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir.” (Rubem Alves)
Ainda vivemos em uma cultura que evita a morte. Ela é um tabu — algo a ser temido, escondido, contornado. Para nós, profissionais da saúde, isso é ainda mais delicado. Estamos em contato direto com a terminalidade, mas nossa formação insiste em nos colocar do lado da “vida”, como se a morte fosse sempre o inimigo.
Na medicina de emergência, essa dualidade se intensifica. Muitas salas de emergência se tornam palco de incontáveis iatrogenias, muitas vezes motivadas não por descuido, mas por excesso de zelo — por uma guerra malposicionada. Fomos treinados para salvar e para vencer. Como se fôssemos super-heróis. Como se perder um paciente fosse uma falha pessoal. É comum ouvirmos colegas dizendo: “No meu plantão, ninguém morre”, como se a morte fosse sinônimo de fracasso.
O curta de animação The Lady and the Reaper retrata esse embate com ironia e sensibilidade. Nele, uma senhora está pronta para partir. A Morte se aproxima de forma serena, quase respeitosa. Mas então, um médico entra em cena como um herói desavisado, iniciando uma batalha contra a própria vontade da paciente. O resultado é caótico: vida e morte em constante disputa, enquanto a dignidade do fim se desfaz.
Essa visão heroica da medicina — e, especialmente, do médico emergencista — nos atravessa desde a formação. Somos moldados para agir, intervir, reverter. A emergência nos ensina a lutar contra o tempo e a falência dos sistemas. Mas… e se a morte não fosse o oposto da vida, e sim parte dela? Enquanto mantivermos a lógica da batalha — vida versus morte — a frustração será inevitável. Porque, cedo ou tarde, a morte vence. E não porque seja cruel, mas porque é natural. Faz parte do ciclo que todos nós vivemos. Se não conseguimos olhar para isso com humanidade, sensibilidade e ética, acabamos por criar sofrimento desnecessário — para os paciente e para nós mesmos.
Muitas vezes, na tentativa de não deixar morrer, caímos na armadilha da obstinação terapêutica — o prolongamento de tratamentos fúteis, que já não trazem benefício real ao paciente, apenas estendendo o processo de morrer. Intubamos corpos que já estão partindo, realizamos manobras que causam mais dor do que alívio, insistimos em intervenções por medo, por incerteza… ou por não sabermos lidar com o fim.
A tecnologia médica avançou. Hoje podemos prolongar o tempo. Mas será que estamos prolongando a vida… ou apenas adiando a morte? Será que estamos realmente ouvindo nossos pacientes? Oferecendo opções reais? Ou apenas impondo intervenções em nome de uma esperança que é só nossa? É nesses momentos que surge a conspiração do silêncio. Evita-se falar de morte com medo de destruir a esperança. Mas esperança não é ilusão. Esperança pode ser lucidez, presença, conforto. E nessa hora, quando o paciente começa a chorar, a reação imediata é: “Chama o psicólogo!”. Claro que a psicologia tem ferramentas fundamentais. Mas será que não podemos também estar presentes ali? Sentados ao lado, escutando e acolhendo? Às vezes, tudo que se precisa é de uma cadeira. Para nos colocarmos ao nível do olhar. Para escutar mais do que falar. Para simplesmente estar.
Reconhecer o limite entre cuidado e obstinação exige mais do que conhecimento técnico. Exige presença, maturidade — e, sobretudo, autoconhecimento. É só quando aceitamos que a morte faz parte da vida que conseguimos parar de combatê-la — e começamos, de fato, a cuidar. Porém, o autoconhecimento não se ensina em aula prática. Ele nasce da escuta interna. Da coragem de reconhecer que também sofremos. Que também perdemos. Que também nos enlutamos. E o luto do profissional de saúde é um luto silencioso. A perda de um paciente dói, mas raramente há espaço para elaborá-la. O hospital apaga rapidamente a presença do que foi. O corpo some. O quarto é limpo. E seguimos em frente, como se nada tivesse acontecido. Mas aconteceu. E acontece todos os dias. Negar essa dor nos adoece. O luto que não é vivido vira burnout. A pressão para ser herói vira exaustão. E o cuidado se transforma em peso.
Por isso, talvez seja hora de repensarmos nossa armadura. De deixarmos o escudo de lado e reconhecermos que não estamos em guerra. Que o verdadeiro cuidado não está na luta, mas sim na escuta, na presença, no respeito à vida — inclusive quando ela se aproxima do fim. Porque não somos super-heróis. Somos humanos. E é justamente isso que nos permite cuidar de outros humanos.
Fernando Cinquetti é médico residente em Medicina de Emergência, defensor das habilidades não técnicas, da escuta atenta e da humanização na prática médica. Questionador por natureza, vê na filosofia e na comunicação ferramentas tão importantes quanto o estetoscópio. Prefere enfrentar verdades difíceis a se esconder atrás de certezas confortáveis.
Perfeito!
Senssacional. Verdade absoluta indiscutivel. Parabens ao autor
Texto humanizado e acolhedor
Excelente reflexão!
Estamos diante de um construto social, que vai além da medicina. Botox, preenchimento, harmonização… juventude preservada, maturidade adiada… que se poderá dizer da morte, então? E haja judicialização na medicina por parte de familiares ausentes durante a vida toda que querem intervenções a qualquer custo na ilusão de expiação de suas culpas quase que inconscientes? O médico faz parte dessa cultura, gerou-se dentro dela e se imbui de um poder quase divino, que cresce no amplo silêncio de algumas escolas sobre o assunto. Que mais vozes possam ecoar refletindo sobre o assunto e despertando o senso crítico (artigo raro) de todos.
Texto perfeito. Fomos ensinados a prolongar ao máximo a vida do paciente. Temos o direito de manter a ele e a família em sofrimento porque fomos ensinados assim?
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