
“Que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.”(Manoel de Barros)
Por Rogério Thaddeu
Para Aristóteles, é pela admiração — ou pelo espanto — que os homens começam a filosofar. Esta afirmação, tão antiga quanto atual, abre um caminho fértil para pensarmos a medicina. Afinal: por que precisamos da filosofia em nossa prática médica?
E mais ainda: que lugar ocupam o espanto e a admiração no cotidiano dos cuidados em saúde?
Antes de buscar respostas — e talvez encontrar mais perguntas — proponho ao leitor uma provocação inicial: será possível experimentar a admiração antes do espanto?
Não sou filósofo de formação, embora tenha lecionado filosofia em cursos de Psicologia. Minha visão de mundo foi moldada pela prática clínica, pelos estudos de psicanálise, pelos anos como professor e — mais recentemente — pelas experiências vividas no ambiente hospitalar, onde atuo como médico interno. São essas vivências entrelaçadas que me convocam, dia após dia, a refletir sobre o que significa cuidar do outro e compreender a fragilidade humana, bem como, a prática médica.
Escrevo movido por uma inquietação: Como preservar a admiração pela medicina quando a rotina tende a nos endurecer, anestesiar e afastar do sentido mais profundo do cuidado?
É perceptível que muitos de nós vamos perdendo, ao longo da formação e da prática diária, aquele brilho inicial — uma forma de encantamento que precedia a pressa, os protocolos, as horas de plantão mal dormidas, a burocracia, a sobrecarga de pacientes e a exigência constante de eficiência nesta sociedade da performance.
É possível sustentar a admiração, mesmo em meio às limitações, aos prognósticos difíceis, às impotências inevitáveis que atravessam a prática médica?
Não tenho décadas de experiência médica e talvez, não seja, como costumo brincar, um “bom conselheiro” para veteranos. Mas carrego comigo a escuta, a observação e a disposição para aprender e questionar — elementos que me parecem essenciais à filosofia da Slow Medicine.
Primeiro o espanto, depois a admiração:
Ao revisitar a questão que inaugura este texto, percebo que a admiração é difícil de sustentar sem haver atravessado o espanto.
O espanto é imediato, rompe o tempo, nos convoca a agir. Já a admiração, ao contrário, demanda um tempo próprio — mais lento, mais silencioso, que só se torna possível depois do acontecimento. Este também é o momento de compreender mais profundamente aquilo que estava sob suspensão.
Na medicina, é o espanto que chega primeiro: a súbita mudança do estado clínico, o monitor que dispara, a queda abrupta da saturação, o olhar assustado de um paciente, a porta que se abre na urgência, mas também, o bolo de chocolate que a criança internada oferece ao interno de medicina, e aqueles olhares dos pacientes internados que nos convocam, e que nem sempre desejam saber mais sobre sua doença e sim, se estão melhorando e se poderão ir em breve para casa. O espanto, portanto, não é feito somente de experiências negativas.
Vivemos dizendo — quase como um mantra de superstição — que “plantão tranquilo é plantão arriscado”. Nenhuma previsão dá conta do inesperado. Esquecemo-nos de que não controlamos a vida. Primeiro o espanto, depois a admiração. Em nossa tentativa de domínio absoluto — exames, algoritmos, escalas, protocolos — podemos nos afastar da dimensão humana que atravessa todo cuidado. O espanto, paradoxalmente, nos lembra dessa verdade. Mas acostumamo-nos. O mesmo espanto, se repetido em excesso, corre o risco de virar indiferença. Deixar de espantar-se é, em parte, um mecanismo de proteção. Mas é também um risco: o risco de não mais admirar. E sem admiração, sem beleza, a medicina se empobrece, perde a arte que a constitui.
Aquela quinta-feira de manhã foi diferente. O espanto não pediu licença. A urgência do hospital estava relativamente calma, e eu — interno de medicina — ainda não havia testemunhado de perto uma situação tão grave. De repente, um homem de 54 anos adentrou na recepção do hospital caminhando.
Aprendi rapidamente naquele dia que, quando um paciente chega andando na urgência de um hospital, não significa que esteja necessariamente bem e que, sobretudo, pacientes com histórico de cardiopatias, o cuidado precisa ser redobrado. Ele estava sudoreico, com as extremidades frias e dificuldade respiratória. Aquele conjunto de sinais — quase “discretos”, mas eloquentes — me atravessou como um alerta silencioso. Auscultá-lo na pré-consulta foi suficiente para compreender que algo estava errado e potencialmente grave. Comuniquei imediatamente à médica o meu parecer. Conduzimos o paciente para a maca. E então tudo aconteceu rápido, quase rápido demais para registrar no corpo. Outro médico chegou para ajudar e enquanto se realizava eletrocardiograma, exames, medicações, a equipe cumpria uma determinada função e os médicos se revezavam na reanimação cardiorrespiratória e ventilação. Após a realização do eletrocardiograma, verificamos a gravidade desta situação e então o cenário se modificou instantaneamente. O rosto cianótico, a pele que esfria, o pulso que some. Sim, estávamos diante de uma parada cardiorrespiratória. Eu revezava entre as manobras de RCP e ventilação, atento a cada comando dos médicos. O suor escorrendo no rosto, a mente focada e ao mesmo tempo inundada de perguntas silenciosas. Fizemos tudo o que sabíamos. Até que veio o momento em que a equipe médica me autorizou a parar de realizar as manobras de ressuscitação cardiopulmonar. É impossível descrever o peso dessa pausa. Depois do espanto, o encontro com o humano. Em nenhum momento cogitei a possibilidade de interromper o procedimento que estava realizando. Meu intuito era salvar aquela vida. Mas quem ou que realmente eu estava tentando salvar? Talvez, a “minha medicina”. A psicanálise neste momento pode lançar alguma luz: eu estava cansado, com saudades de casa, da família e no último ano de medicina, no internato, em outro país, pude sentir o peso dos longos anos de formação e das renúncias que fiz para chegar neste ponto da minha vida. Estou prestes a me tornar um médico e não quero perder minha humanidade, mas o quanto era difícil sustentar esse momento de minha vida. Salvar aquele homem, era de alguma forma, salvar a minha esperança na medicina que acredito. “Não vou morrer na praia, já cheguei até aqui.” Mas, após as orientações dos médicos, interrompi o procedimento e constatei o profundo impacto da finitude.
Ainda havia outra tarefa, talvez a mais difícil: comunicar a morte à família. Eu estava junto e fazia parte da equipe médica, pelo menos, foi assim que me senti. Pude sentir a responsabilidade e a difícil arte de comunicar más notícias aos familiares. A filha desabou, gritou e chorava. Abracei-a. Coloquei a mão em seu ombro e ali permaneci por algum tempo em silêncio. Após algum tempo, retorno à urgência onde juntamente com a equipe, ajudo a transportar este senhor para uma maca, levando-o coberto por um lençol branco até a “casinha”, o pequeno espaço onde aguardam os corpos até a chegada da funerária. O corredor parecia mais longo naquele dia. A equipe permaneceu em silêncio. Mas havia nos olhares algo semelhante a um reconhecimento compartilhado: fizemos o possível. Acertamos? Erramos? Faltou algo? Nunca saberemos tudo. A medicina também é feita de limites — e talvez seja essa uma de suas faces mais humanas. Foi o meu primeiro “óbito”. E ali, paradoxalmente, nasceu também uma forma de admiração. Foi muito diferente daquele primeiro encantamento do início da formação. Uma admiração que não nega a dor, mas se permite existir apesar dela. A admiração como antídoto contra a pressa.
A Slow Medicine nos convida a resgatar exatamente isso: o cuidado que reconhece a humanidade antes do procedimento. O tempo que se permite sentir antes de agir. O olhar que não se reduz ao diagnóstico. Ela nos ensina que a vida não cabe inteira no ritmo acelerado dos protocolos, ainda que eles sejam fundamentais. A medicina exige técnica, ciência, raciocínio, rapidez quando necessária — mas exige também pausa, presença, delicadeza e humildade. A mão no ombro, o abraço, o acolhimento — esses gestos que não aprendemos em nenhum manual — são tão necessários quanto a interpretação de um hemograma ou a leitura de um ECG.
O espanto abre a porta. A admiração nos permite atravessá-la de modo mais consciente. E talvez seja justamente esse intervalo que sustenta a medicina humana que todos desejamos praticar. Naquele dia, perdemos, mas também ganhamos e entre espantos e admiração, vamos nos tornando médicos mais humanos.
Rogério Thaddeu é médico interno, psicoterapeuta e escritor.
Na medicina, o espanto e a admiração não vêm da técnica, mas da arte!
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