
“Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo.”(José Saramago)
Por Erika Ramos
O panorama de saúde brasileiro, marcado pelo envelhecimento populacional e pelo aumento das doenças crônicas, eleva dramaticamente a demanda por cuidados paliativos, cuja missão é oferecer conforto, qualidade de vida e dignidade. No Brasil, a urgência é palpável: mais de 800 mil indivíduos requerem atualmente serviços de cuidados paliativos, e as projeções indicam que, até 2040, esse número ultrapasse um milhão (1).
Apesar da necessidade ser enorme, é muito comum as pessoas terem dúvidas sobre o que são esses cuidados que possuem um nome que remete a “disfarçar um problema” ou “improviso”. A origem da palavra paliativo vem de pallium que significa proteger, manto, numa alusão ao sentido de proteção, portanto diz a respeito a um cuidado acolhedor (2). A definição de acordo com a Organização Mundial da Saúde: “são uma abordagem que melhora a qualidade de vida de pacientes (adultos e crianças) e suas famílias que enfrentam problemas associados a doenças que ameacem a vida. Previne e alivia o sofrimento por meio da identificação precoce, avaliação correta e tratamento da dor e de outros problemas, sejam eles físicos, psicossociais ou espirituais (3). É o acompanhamento por meio de uma equipe interprofissional e multidisciplinar com a sua diversidade de olhares frente à saúde da pessoa que viabiliza o cuidado na sua integralidade, para poder alcançar todas as demandas da pessoa e da família.
E você deve estar se perguntando: “Por que eles são importantes?” O objetivo é oferecer conforto e qualidade de vida, desde o momento do diagnóstico até o fim da vida (3). É importante frisar que eles não são apenas quando a pessoa está morrendo, qualquer pessoa com uma doença grave se beneficia, mas sem dúvida nesse período tem muita demanda para abordagem desses cuidados.
Outra pergunta muito comum é: “o que esse acompanhamento oferece de diferente em relação às outras especialidades?” O planejamento de cuidados é a espinha dorsal dos cuidados paliativos: ele promove um alinhamento dos valores e desejos da pessoa e é estabelecido por meio da decisão compartilhada qual o melhor cuidado para ela.
O cuidado paliativo é a parte crucial dos serviços de saúde integrados e centrados na pessoa, em todos os níveis de cuidado: em casa, no ambulatório, durante internações hospitalares ou em unidades especializadas, como as hospedarias. Possui o objetivo de aliviar o sofrimento, seja de pessoas com câncer, fragilidade no idoso, demência, doença de Parkinson ou doenças crônicas como insuficiência cardíaca e doença pulmonar obstrutiva crônica.”
Infelizmente, em nosso cotidiano clínico, o que mais observamos são pessoas em intenso sofrimento sendo referenciadas tardiamente, quando as alternativas de tratamento modificador da doença já se esgotaram. Se fosse uma partida de futebol, seria como entrar em campo na prorrogação dos 45 minutos do segundo tempo. Nesses casos, há muito pouco tempo para o apoio efetivo das famílias. É crucial reforçar: há necessidade de uma integração mais precoce dos cuidados paliativos, concomitantemente ao tratamento da doença.
Como diz a autora espanhola, Rosa Montero, o essencial só pode ser dito por meio de metáfora (4). Se fosse para fazer uma analogia com o café, os cuidados paliativos se parecem muito mais com um café coado com calma. Os grãos são moídos na hora, a água tem a temperatura certa, a filtragem acontece em etapas e tudo convida à presença plena. É nesse ritmo que o cuidado se revela: atento aos detalhes. Assim como um bom café, o cuidado paliativo não se improvisa. É por isso que dizemos: “Não fazemos paliativo expresso.” Cuidados paliativos não podem ser prestados às pressas, de forma improvisada ou superficial. É um cuidado que precisa de tempo, presença e escuta para acontecer com qualidade. O café expresso continua tendo a sua importância e necessidade em certas circunstâncias, assim como você pode me pedir uma avaliação pontual e rápida para um caso específico.
O cuidado deve ser sem pressa, respeitando o tempo de cada pessoa, os ritmos do adoecimento, os silêncios, as dúvidas e as escolhas. Se compromete com o que há de mais essencial: o bem-estar integral do indivíduo. Não há atalhos para cuidar com profundidade. É preciso tempo para a construção do vínculo e presença para o acolhimento da pessoa e da família.
A pressa é inimiga da escuta. A correria rouba o espaço da presença. A velocidade nega o vínculo.
REFERÊNCIAS
1-SANTOS, C. E. et al. Cuidados paliativos no Brasil: presente e futuro. Revista da Associação Médica Brasileira, v. 65, n. 6, p. 796-802, jun. 2019. DOI: 10.1590/1806-9282.65.6.796
2- QUINTINO, Carla Romagnolli; TIBÉRIO, Iolanda de Fátima L. Calvo; CARVALHO, Ricardo Tavares de. Cuidado paliativo: formação técnica e humanística para profissionais de saúde. Barueri: Manole, 2025.
3- Organização Mundial da Saúde (OMS). Definição de Cuidados Paliativos. Genebra: OMS, 2002.
4- MONTERO, Rosa. O perigo de estar lúcida. São Paulo: Todavia, 2023
Erika Ramos: Sou médica com área de atuação em cuidados paliativos, professora com mestrado, coordenadora do programa de mentoria para residentes e nas horas vagas, ciclista. Questionadora das complexidades humanas, encontro sentido nas conversas profundas e no cuidado com o outro. Me encanto por conhecer novos lugares e pela literatura.
Minha filosofia de vida é inspirada na prática de yoga e meditação. Tenho admiração pelo inconsciente e pela psicanálise, por reconhecerem a riqueza da subjetividade e acolherem o que é singular em cada ser. Sou amante do mar, do silêncio e da natureza – meu espaço sagrado de conexão.
Brilhante esclarecimento desta área da medicina tão delicada que é o cuidar , escutar e aliviar a dor do paciente e da família 👏👏👏👏Parabéns Dra. , linda profissão que escolheste dos cuidados paliativos !!! Desejo de coração muito sucesso 😍😘
Cirúrgica nas palavras . Só famílias que viveram isso sabem como é difícil lidar com essa problematica quando ela chega. 🥹
Belas palavras , super necessário para o entendimento de uma área tão importante . Parabéns
Belas palavras. Estarmos em estado de presença verdadeira é a essência do verdadeiro cuidado.
Parabéns pelo texto!
Um texto essencial para todos nós e muito bem escrito,por Dra.Erika Ramos
Perfeito o tema e texto.
Passei por caso que se encaixaria e gostaria de ter sido acolhida com essa abordagem.
Muito bom. Você toca num ponto fundamental. Infelizmente, não é raro na minha prática médica começar a discussão sobre cuidados paliativos quando o paciente já está internado em estado grave na UTI
Os cuidados paliativos devem começar cedo, desde o diagnóstico de uma doença que pode limitar a vida, mesmo que num futuro distante. Iniciar antes evita sofrimento, permite planejamento, fortalece vínculos e garante que o cuidado seja direcionado a viver com qualidade
Parabéns Erika! Que texto! Confesso que fiquei impactada positivamente com a leitura. Adorei também a metáfora do café para traduzir a essência dos cuidados paliativos. Um trabalho necessário e valioso.
Perfeita chamada para um cuidado tão necessário. Ja interagi com diversos medicos que se intitulam paliativistas, mas sem esse conceito de escuta, compreensão das vontades e necessidades das pessoas e familiares, pouco adianta. Obrigada Dra Erika pelas palavras q descrevem p q sinto no cuidado da minha mãe de 88 anos texto maravilhoso e final perfeito “ A pressa é inimiga da escuta. A correria rouba o espaço da presença. A velocidade nega o vínculo.”
Parabéns pela clareza e sutileza!
Cafezim coado com calma 😍😍😍😍
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