O abanador de moscas e a medicina do espetáculo

junho 30, 2025
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Por Rogério Thaddeu

“As nossas tragédias são sempre de uma profunda banalidade para os outros.”(Oscar Wilde)

Era um sábado de manhã, e os acadêmicos de medicina estavam entusiasmados com o projeto de extensão promovido pela universidade — uma oportunidade concreta de levar assistência médica às comunidades em situação de vulnerabilidade. Era mais que um estágio: era uma vivência real, fora dos muros acadêmicos, diante da dor e da complexidade da vida. Uma experiência interessante, talvez, pelo ineditismo da prática médica que se avistava.

Estudar medicina em outro país é, por si só, uma jornada desafiadora. A saudade da família, as barreiras culturais, as diferenças nos costumes e no idioma exigem mais do que esforço intelectual. Exigem resiliência, maturidade emocional e, sobretudo, um senso claro de propósito. A escolha pela medicina, muitas vezes idealizada, cobra lucidez e compromisso contínuo.

Estamos na Ciudad del Este, no Paraguai — uma cidade de contrastes intensos, conectada ao Brasil pela Ponte da Amizade, que liga Foz do Iguaçu no Paraná, a um mundo distinto. Muitos brasileiros vivem aqui com o intuito de realizar um sonho: trabalhar como  médicos. Eles chegam de todos os lugares do Brasil e até mesmo de outros países, como a Argentina. Com seus sotaques, idiossincrasias e culturas diferentes, os futuros médicos chegam para viver uma experiência desafiadora, não somente pelo fato de cursar medicina em outro país mas, sobretudo, pelas inúmeras variáveis que colocam em xeque a possibilidade de alguma lucidez, destacando a necessidade imperiosa de adaptação constante. A travessia da fronteira, marcada por estímulos sensoriais intensos, luzes, ruídos e um fluxo de movimento caótico, nos convida diariamente à busca permanente de autoconhecimento para o desenvolvimento de recursos emocionais suficientes para “suportar” os longos anos de formação e adaptação frente à realidade. A travessia da Ponte da Amizade em direção ao Paraguai inaugura uma espécie de portal em que o clima emocional parece se fazer “pesado”. Alguns confessam nunca mais ter o desejo de pisar nessas terras, devido ao intenso sofrimento que vivenciam. De qualquer forma, não se pode negar a importância dos aprendizados riquíssimos que se leva para a vida. Há sempre aqueles que não suportam, desistem ou, infelizmente, adoecem, culminando em processos autodestrutivos. A característica mais salutar para se viver aqui é certamente a resistência psíquica. Aqui o ensino e a prática, na linguagem dos professores, é a “medicina de guerra”, afinal, estamos em um país com limitados recursos de assistência à saúde. 

À medida que nos afastamos da ponte, os sons mudam, o idioma torna-se outro, e a experiência cotidiana nos invade exigindo um constante exercício de adaptação. Estamos diante do estranhamento, conceito já desenvolvido por Sigmund Freud, pai da psicanálise, ao dizer que este estado diz respeito ao estranho que nos habita do qual  situamos no outro como algo diferente. Nós, brasileiros, aprendemos a escutar e a falar de forma diferente, a compreender o novo contexto. A experiência é rica, intensa, transformadora — mas pode também ser avassaladora, especialmente se faltarem recursos emocionais bem estruturados. E como faltam! – a lucidez por aqui é artigo de luxo.   

Pois bem, chegou o grande dia. Naquele sábado, os materiais estavam organizados: estetoscópios, esfigmomanômetros, oxímetros, jalecos impecáveis. E, para muitos, o mais essencial: celulares devidamente carregados, prontos para registrar cada gesto. Afinal, em tempos digitais, parece que nada é vivido plenamente se não for exposto. Viver nesta sociedade do espetáculo e das performances é cansativo. Mas, avancemos!

Entre aferições de pressão arterial, entrega de medicamentos e orientações clínicas, um pedido inesperado interrompe a rotina:

— Dr, ¿usted puede ayudar a mi amigo?

Respondi que sim em espanhol. Por sorte, o pedido não foi anunciado em guarani, idioma também falado por aqui, o qual tentamos apreender. Dois colegas também se prontificaram. Fomos até a praça onde um homem jazia na grama. Seu casaco azul sujo e o forte odor denunciavam uma situação grave. Moscas sobrevoavam sua cabeça, como se anunciassem uma cena que exigia mais do que saber técnico — demandava presença humana.

Nos aproximamos. Um dos colegas, com mais experiência clínica, retirou o capuz do homem. A ferida era profunda e estava infestada de vermes. Grande parte dos tecidos já estavam necrosados. O odor era quase insuportável. Munidos de uma garrafa plástica, gaze, soro e uma velha prancheta de madeira, começamos a fazer o que estava ao nosso alcance.

O colega mais experiente iniciou a assepsia. Nós ajudamos como podíamos. Começamos a retirar os vermes, um por um, tentando, com o pouco que tínhamos, oferecer dignidade. Seguimos até o limite do possível. Sob orientação da médica responsável, acionamos uma ambulância.

Naquele momento, percebi: minha prancheta de madeira, até então usada apenas para preencher formulários, tornou-se um instrumento silencioso de cuidado. Usei-a para abanar as moscas que insistiam em pousar na cabeça daquele homem. Pode parecer pouco, mas era o que eu podia fazer.

Nunca mais o vi. Mas me recusei a transformar aquele drama em espetáculo. Em pé estavam aproximadamente dez acadêmicos registrando o drama. Foram capturados pela cena trágica, transformando-a em espetáculo. O que eu poderia fazer neste momento? Recusei-me a registrar a cena e sabia que esta experiência me transformaria em algum sentido. Fiz o que pude, em silêncio. E foi ali que compreendi a complexidade da dor humana e a nossa responsabilidade diante dos pacientes. A técnica e a ciência são nossos alicerces, bem como os protocolos médicos para sabermos intervir nestas situações, mas percebi que um simples abanador de moscas poderia fazer alguma diferença.

Vivemos tempos em que a dor virou conteúdo. A medicina do espetáculo banaliza o sofrimento, converte tragédias em postagens e ignora os fundamentos éticos que deveriam nortear a prática médica e a nossa formação continua. A tragédia parece seduzir acadêmicos e médicos sedentos de aprovação e visibilidade. Será que a dor, o sofrimento, a doença colocam-se como um campo fértil gerador de conteúdos na internet? Mais vale parecer médico do que realmente ser?

Cuidar vai além do diagnóstico. Cuidar é reconhecer a humanidade do outro. É estar presente mesmo quando pouco se pode fazer. É resistir à tentação de transformar a vida — ou a morte — em performance.

Dentro da perspectiva da slow medicine, cuidar envolve estar atento à complexidade humana, às idiossincrasias, à individualidade de cada ser humano e até mesmo diante do  “estranho”, do desconhecido, do enigma do outro, da dor, da complexidade da doença e das inúmeras variáveis que parecem escapar dos protocolos médicos “universais”. Nem sempre saberemos o que fazer diante de nossos pacientes, sobretudo quanto à singularidade de sua condição. Uma medicina sem pressa está longe de ser ineficiente. Há momentos nos quais nossa agilidade de raciocínio clínico e de intervenções precisarão ser colocadas  à prova, afinal, estamos cuidando de vidas humanas. Mas será que sempre teremos classificações, diagnósticos e protocolos universais capazes de curar ou aliviar a dor do outro? Ao observar os fundamentos que orientam esta perspectiva médica slow, verifico o quanto minha atitude foi importante naquele momento. Reconheço a imaturidade de minha técnica e do raciocínio médico ainda incipiente, por outro lado, compreendo que estas habilidades se fazem com o tempo e a prática diária. 

Que os poucos lúcidos, entre os muitos deslumbrados, possam lembrar que até um gesto singelo — como espantar moscas — pode carregar o mais profundo sentido de humanidade. E que esse gesto, invisível aos olhos das redes sociais, talvez seja a essência do que realmente significa ser um médico “slow”. Quanto aquele homem prostrado no chão, nunca mais o vi, mas se hoje posso escrever algumas palavras, sua existência me marcou profundamente e expresso minha gratidão pelos valiosos aprendizados. Hoje, mais avançado nos estudos médicos, rumo ao internato, posso dizer tranquilamente que jamais hesitarei em utilizar minha prancheta de madeira e, se nada souber, que eu seja apenas um mero abanador de moscas.


Rogério Thaddeu é psicoterapeuta e acadêmico de medicina.

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Vanessa Zampieri
Vanessa Zampieri
8 meses atrás

Obrigada por compartilhar essa experiência vivida e não capturada por um celular. Que seu exemplo seja multiplicado🤍

Nilton Volquind
Nilton Volquind
8 meses atrás

Sensacional. Num mundo onde tudo deve ser registrado nas câmeras dos celulares, onde fica o ser humano na hora em que deve tomar decisões? Temos que ensinar estes alunos que o importante é a prática da Medicina e não a prática de fotografias do “caso”. A vida humana é muito mais importante que uma foto no celular.

Daniele Oliveira
Daniele Oliveira
8 meses atrás

Acredito que o verdadeiro impacto começa com um olhar humano, aquele que vem antes do técnico, do clínico, e que se aprofunda com as experiências vividas ao longo do caminho. Que as “moscas” da sua vida continuem, sim, a incomodar , pois é esse incômodo que impulsiona o crescimento, não apenas em habilidades técnicas, mas principalmente em sensibilidade, empatia e um olhar verdadeiramente holístico.

Lidamos com pessoas, com histórias, com sentimentos e não com “números” ou “seguidores”. Seu texto nos convida a refletir sobre isso, e por isso, parabéns! Que sua prancheta simbolize mais do que um instrumento de trabalho; que ela seja um lembrete diário de como agir com integridade, compaixão e coragem diante dos desafios da vida.

E como diz o ditado: “se a vida te der um limão, faça uma limonada” , mas que essa limonada venha com propósito, amor e fé. Desejo uma jornada repleta de aprendizado e propósito, e que o Senhor Jesus continue sendo seu direcionamento, por meio do Espírito Santo de Deus.

Alessandro
Alessandro
5 meses atrás

Ser Médico, não aparentar. Esse é o ponto. Parabéns pela lucidez, precoce e oportuna… Abraço!

nustargameph
nustargameph
1 mês atrás

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