O estetoscópio, os horizontes criativos e o tempo

dezembro 11, 2025
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“A idade é o menor sintoma de velhice.” (Mário Quintana)

Por Aracy P. S. Balbani

Médicos de hoje e de amanhã

O estudo “Demografia Médica no Brasil 2025” projeta que, dentro de 10 anos, o país terá 1,15 milhão de médicos em atividade, sendo a maioria mulheres (55,7%), com média de idade 40,8 anos – um perfil profissional mais jovem do que o atual. Se a longevidade do povo brasileiro aumentou, e os idosos se mantêm saudáveis, ativos e produtivos por mais tempo, como olhar essa projeção futura da prática médica com a lente da demografia geral?

Um dos meus professores da graduação – lá vão mais de 30 anos – afirmava que, uma década após a colação de grau de cada turma, parte significativa dos formandos trocava a Medicina por outro trabalho remunerado: advogado, político, agropecuarista ou empresário.  De fato, foram eleitos 37 médicos como deputados federais ou senadores em 2022, e centenas como prefeitos ou vereadores por todo o Brasil em 2024. Mas nem todos os que abraçam a vida política abandonam a Medicina. É comum que vereadores e vereadoras continuem exercendo a profissão durante o mandato legislativo. 

Médicos que se tornam empresários também podem conciliar essas atividades com frequência razoável. Pesquisadores que registram patentes ou procuram incubadoras de empresas lideram dezenas, talvez centenas de startups muito promissoras no país.

Medicina sem pressa no horizonte

Dentre os formandos que permanecem exclusivamente na Medicina, há quem mude de especialidade após concluir a residência ou especialização. Na interessante dissertação de mestrado de Flávio Gosling, apresentada à Faculdade de Medicina da USP e publicada em coautoria com Patrícia Bellodi, dezoito médicos e médicas entrevistadas trocaram a Pediatria pela Psiquiatria ou pela Anestesiologia, a Cirurgia pela Homeopatia, ou a Pneumologia pela Radiologia, por exemplo. 

As motivações mais comuns para a mudança na carreira relacionaram-se ao cotidiano da especialidade original. A frustração com o estilo de vida, o desgaste psíquico e o estresse foram citados com frequência.  As mulheres foram a maioria das entrevistadas (72%) e apontaram que a questão de gênero e a maternidade podem influenciar a ‘mudança de rota’ profissional. 

Ao contrário do que se poderia imaginar, nessa amostra de médicos a remuneração da especialidade original não foi o fator mais relevante para decidir pela mudança. Sintoma da busca de uma prática profissional sóbria, justa e respeitosa para que o médico seja mais feliz?

Influências fora do controle médico

É claro que outras circunstâncias da vida podem desencadear uma guinada profissional involuntária. Sequelas físicas incapacitantes e permanentes de acidentes, câncer ou outras doenças podem encerrar precocemente a carreira de um cirurgião cardíaco brilhante, obrigando-o a assumir tarefas administrativas. 

Dificilmente os graduandos, residentes, pós-graduandos e médicos atuantes são preparados para lidar com o luto e a luta de redesenhar a carreira nessas eventualidades. Está aí algo que precisa deixar de ser tabu e se incorporar à educação médica e às instituições que empregam o trabalho médico. O caso do cirurgião torácico Nelson Bergonse Neto, que ficou paraplégico após um acidente de motocicleta e voltou a operar com a reabilitação e o apoio da instituição onde trabalha, é emblemático. 

A pandemia de COVID-19 causou transformações profundas no contexto do trabalho. As situações inéditas, muitas vezes dramáticas, fizeram bastante gente parar e (re)pensar a vida profissional. A transição de carreira tornou-se mais comum em todas as áreas. 

Entre médicos e demais profissionais de saúde, não raro os acontecimentos traumáticos determinaram a decisão. Escutamos vários relatos de profissionais experientes impactados pela morte de colegas de equipe contaminados pelo coronavírus, pela sensação de impotência diante de doentes graves para os quais não havia oxigênio disponível, ou por terem sofrido agressões físicas de familiares revoltados – com a internação de doentes em UTIs de isolamento, ou com a perda de seus entes mais queridos em questão de horas, sem a possibilidade de uma despedida.

 Outros fatores entram na conta nos dias atuais: todas as formas de assédio e violência sofridas nos locais de trabalho; a falta de reconhecimento por bons serviços prestados; a pressão por produção elevada de artigos científicos; a insatisfação com a remuneração; a deterioração das condições gerais de trabalho dos médicos. Esses aspectos não só afetam a saúde, roubam a paz e ferem a dignidade dos profissionais. Também corroem a confiança destes em gestores governamentais ou empresariais.

Há quem se resigne e prefira trocar de profissão para prevenir conflitos. Outro grupo resiste e denuncia os abusos e as omissões que prejudicam o trabalho médico.

Isso tudo fornece substrato rico para inúmeros estudos de médicos, psicólogos, sociólogos, antropólogos, cientistas políticos, filósofos e economistas. É preciso pensar com atenção e perspicácia no ser humano que exerce a Medicina e no contexto histórico-social em que ele vive.

Mais criatividade e leveza, menos austeridade, por gentileza

É fato que o médico abre mão de muitos momentos de cultura e lazer em razão dos estudos, plantões e outras tarefas profissionais. É possível que fique meses ou anos sem ir ao teatro ou a uma exposição de arte. Muita gente sentencia: ‘Quem mandou escolher ser médico? Agora aguente!”.

Contudo, assim como seus gestores e clientes, o médico não deixa de ser um sujeito criativo e curioso. Ele também necessita de estímulo cultural periódico e de boa qualidade – seja fruindo ou produzindo a arte. 

Muitos médicos têm talento enorme para a música, a literatura, as artes visuais, a dança ou a representação teatral, mas não conseguem dar vazão a ele. Falta-lhes tempo, ou, pior, sobram-lhes críticas e desconfiança de boa parte da sociedade – até de seus pares. Onde já se viu um médico subir ao palco maquiado, tocar violão ou produzir artesanato em pleno final de tarde de quinta-feira?

Cultivar o lado lúdico da vida, então, é um desafio imenso. E não somente para os médicos, mas para todos os adultos. Se membros de uma equipe de saúde decidirem dedicar uma hora do lazer semanal a um jogo de tabuleiro ou a uma gincana para relaxar e estreitar o vínculo entre eles, não faltará quem julgue que os profissionais estão loucos ou são infantis, uns irresponsáveis. 

Ser multifacetado

Impera a ideia contemporânea de limitar as competências e os interesses do ser humano a uma única atividade profissional, ou a uma subespecialidade do seu ofício. Puro preconceito. 

Há mais de 500 anos, Leonardo da Vinci foi pintor, engenheiro, inventor e arquiteto, entre outras atividades. Deixou um legado vasto e notável à humanidade. Por que um médico do século 21 não pode se interessar também por Engenharia Civil, Botânica, Administração, Comunicação Social, Cinema, Tecnologia da Informação ou outra área do conhecimento? 

A menos que haja algum impedimento ético, o médico de hoje pode exercer duas profissões simultaneamente, beneficiando-se dos conhecimentos advindos de cada uma. Ou pode, ainda, enveredar por um campo de trabalho inteiramente novo após a aposentadoria.

Passar a usar bengala à medida que ficamos mais idosos ou “pendurar o estetoscópio” não significam o fim do caminho existencial. Não mesmo.

Permanecer descobrindo, aprendendo, conhecendo, inovando e, sobretudo, explorando nosso potencial intelectual em todas as direções são atitudes que nos mantêm vivos em plenitude. 

Até sempre!

Para quem se dedica a ser médico por convicção de que a espécie humana é fascinante na sua complexidade, a Medicina poderá deixar de ser o ganha-pão algum dia. Mas as experiências gratificantes e o privilégio de fazer parte da história de tantas pessoas singulares jamais abandonarão o profissional. 

Seja no voluntariado médico ou colocando em prática a sensibilidade, a observação aguçada e a escuta das pessoas (que são características da Medicina Sem Pressa) em outra atividade profissional, sempre haverá oportunidade de nos tornarmos seres humanos melhores, mais solidários e fraternos.

Saúde!

Bibliografia

Scheffer, M. (coord.). Demografia Médica no Brasil 2025. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2025. ISBN 978-65-5993-754-7. Em:

https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/demografia_medica_brasil_2025.pdf [Acesso em 19/09/2025].

Conselho Federal de Medicina. 37 médicos são eleitos para o Congresso Nacional. 07/10/2022. Em: https://portal.cfm.org.br/noticias/37-medicos-sao-eleitos-para-o-congresso-nacional. [Acesso em 19/09/2025].

Gosling FJ, Bellodi PL. Alterações de rota na medicina – reescolhendo a especialidade médica. Saúde Soc. São Paulo, 2021, 30(4), e200677. Em:  https://www.scielosp.org/article/sausoc/2021.v30n4/e200677/. [Acesso em 19/09/2025].

Monique de Carvalho. Cirurgião que ficou paraplégico após acidente volta a operar com cadeira especial comprada pelo hospital. Só Notícia Boa, 19 / 08 / 2025.  Em: https://www.sonoticiaboa.com.br/2025/08/19/cirurgiao-paraplegico-acidente-volta-operar-cadeira-especial-comprada-hospital [Acesso em 19/09/2025].


Aracy P. S. Balbani é otorrinolaringologista, Doutora em Medicina pela USP, e aluna do curso técnico de design de interiores EAD do Senac-RS. Atua exclusivamente na área assistencial do SUS. Tem como hobbies a jardinagem, a fotografia e a marcenaria.

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1 mês atrás

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