
Por Juliana Fehr Muraro & Lívia Callegari
“Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso…
Mas sê o melhor no que quer que sejas.“
Em tempos de grande circulação de informações, surge a necessidade de se estabelecer, em muitos âmbitos, alguns conceitos, regulamentações, referências e filtros para se evitar equívocos que, posteriormente se enraízam como “falsas verdades”. Profissionais dedicados a educar e exercer a Slow Medicine através de uma abordagem sólida e ao mesmo tempo receptiva, nos convidam reiteradamente ao “pensar e agir Slow” na prática médica, dirimindo dúvidas e afastando o uso indevido do termo.
Inevitavelmente, a analogia em outras áreas da saúde surge como uma demanda, considerando a importância da prática também fora da medicina. Um novo questionamento surge: qual a maneira mais justa e precisa de se adaptar o conceito, levando em consideração a ampla aplicação na saúde? Na tentativa de se construir um conceito para Slow Dentistry, nos deparamos com alguns desafios.
O primeiro desafio (e mais relevante) é a natureza prática da odontologia. O atendimento odontológico pressupõe, em grande parte, a necessidade de intervenções e procedimentos. Apesar de algumas exceções, como urgências e emergências, o tratamento odontológico é constituído por etapas dedicadas ao diagnóstico, prognóstico e plano de tratamento e, após esse transcurso, têm-se o início das intervenções. É neste primeiro momento que o cirurgião dentista tem a maior possibilidade de usar o Tempo a seu favor, dada a sua extrema importância, onde o paciente e o profissional compartilham informações, temores, expectativas e valores, e que o profissional também tem a oportunidade de se planejar para conduzir o tratamento de forma respeitosa, de ponderar riscos e benefícios e de construir um relacionamento cirurgião dentista/paciente baseado na confiança e na ética.
Infelizmente, em não raras situações, a primeira consulta odontológica tende a ser subestimada, tanto por pacientes como profissionais e, em muitos casos, reduzida a um termo depreciativo: consulta de orçamento. Por ser uma área da saúde com grande incidência de intervenções, o olhar de prática conservadora tem que ser adaptado para esta realidade, e simultaneamente, adaptado ao entendimento das reais indicações das mesmas.
O segundo desafio é a grande disponibilidade de técnicas terapêuticas e tecnologias, decorrentes também da natureza prática da profissão. Diante da necessidade de se intervir, o cirurgião dentista encontra disponíveis no mercado muitos materiais e técnicas apresentados por seus pares e pela indústria. Assim como na Slow Medicine, a prática baseada em evidências tem um papel relevante na tomada de decisão clínica, que tende a ser cada vez mais desafiadora. O desenvolvimento da prática odontológica não deve apenas facilitar o tratamento para o profissional, ou até mesmo ser justificativa para overtreatment e tratamentos desnecessários. Todo paciente deve ser devidamente orientado e poupado de excessos.
O terceiro desafio neste caminho para uma adaptação do conceito de Slow Medicine é a contradição do que seria Odontologia por definição Deontológica, e do que as instituições reguladoras determinam em suas atualizações. Quando os limites da prática profissional são redefinidos, novos dilemas surgem, dificultando o entendimento do que seria cuidado adequado e uso de terapias e suas indicações.
Por fim, mas sem a pretensão de encerrar a discussão, temos a falsa impressão de omissão pelo uso ponderado de técnicas e avaliação criteriosa de riscos e benefícios. A exemplo disso, no contexto de uma prática clínica de intervenções, um profissional que, durante o plano de tratamento, entende que a manutenção de um quadro clínico pode evitar riscos, tende a ser classificado como omisso ou negligente. Acompanhar a condição clínica do paciente, ou seja, preservar, é um recurso valioso porém subestimado. O relato: “fui ao dentista, mas ele não fez nada” é relativamente comum após uma avaliação clínica honesta e ponderada.
Cientes destas peculiaridades, a Slow Dentistry se alinha para caminhar de mãos dadas com a Slow Medicine e tantas outras áreas da saúde, entendendo que o indivíduo em sua totalidade pode receber de profissionais, de uma equipe multidisciplinar, o cuidado de maneira respeitosa e justa. Por esse motivo, é necessário atenção com a apropriação do termo, pois para além da visão cuidadosa no desempenho da profissão, tanto a Slow Medicine como a Slow Dentistry, antes de tudo, propõem ao profissional uma postura sóbria, respeitosa e justa.
Usando o tempo a seu favor e consequentemente a favor de seus pacientes, o cirurgião dentista pode promover a prática clínica com foco em avaliação de intervenções pautada em necessidade, legitimidade, preservação e promoção da saúde bucal, educação dos pacientes, desenvolvimento das relações paciente/profissional sustentadas pela confiança mútua e compartilhamento das decisões. Há a reflexão nos atos propostos, o uso parcimonioso da tecnologia e priorização da segurança do paciente.
E o que não é Slow Dentistry?
Assim como em medicina, algumas práticas que se autodenominam especialidades também fazem parte do novo repertório de novidades em Odontologia. Um exemplo é a odontologia biológica, que até o momento desta publicação não é reconhecida como especialidade pelos conselhos competentes.
A lista aumenta com o passar do tempo, muitas promessas de tratamentos excepcionais são oferecidas sem embasamento científico algum. Outros profissionais já se utilizam do termo Slow Dentistry para promover linhas de tratamento, técnicas, planos odontológicos, selos de qualidade e direcionamentos que, de fato, não estão em concordância com os pilares da filosofia Slow. O uso indevido do termo é prática constante e, por este motivo, ações voltadas para educação e divulgação de uma filosofia, são o melhor caminho, sem desvios ou atalhos, para a consolidação do cuidado cauteloso, com foco centrado no paciente e resgate da odontologia como ela deve ser.
Juliana Fehr Muraro: Sou cirurgiã dentista e advogada, especialista em Periodontia e Odontologia Legal. Além da prática clínica, as demandas forenses e éticas em saúde sempre me despertaram interesse. Tive a oportunidade de participar, como colaboradora, de alguns projetos no Departamento de Medicina Legal do Instituto Oscar Freire/FMUSP, em parceria com o setor de Antropologia do Instituto Médico legal Central/SP. Após concluir o mestrado em Bioética, entre 2016 e 2019, fui relatora do Comite de Ética em Pesquisa (CEP/CONEP) da Faculdade de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Em 2019, me mudei com minha família, (minha filha e esposo) para os Emirados Árabes. Foram 3 anos imersos em uma cultura heterogenia do moderno Oriente Médio, repleto de identidades étnicas coexistindo ao mesmo tempo. No ano de 2021, nos mudamos para a Suécia, uma transição cultural rica, literalmente, do deserto à gelida Escandinávia. Uma nova perspectiva, principalmente nos conceitos de vida, saúde e sustentabilidade. Em 2022, um novo destino: Alemanha, que apesar de fazer parte do mesmo continente, têm muitas particularidades e valores próprios. Conhecer este planeta com minha família é provavelmente uma das minhas aventuras prediletas.
Lívia Callegari: Sou advogada inscrita no Brasil e em Portugal, com atuação na área do Direito Médico. Fiz especialização em Direito da Medicina e Direito da Farmácia e Novas Tecnologias, pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e em Bioética pela Faculdade de Medicina da USP. Sou membro do Comite de Ética em Pesquisa/EEUSP Sempre busco reavaliar os meus valores e tomar contato com outras perspectivas. Gosto de viajar e aprender com outras culturas e filosofias de vida. Tenho como base a minha família, amigos, livros, artes, e a dança. Aprecio o cair da tarde. Gosto do silêncio da noite, pela inspiração e a reconexão que me proporciona com o sagrado.
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