Os cegos, os surdos, os mudos: o que (não) temos feito pelo ensino médico

fevereiro 9, 2026
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Por Ana Coradazzi

“O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons.” (Martin Luther King)

Sim, nós sabíamos. A falência da formação de profissionais da saúde está longe de ser um acidente, um infortúnio, uma catástrofe. Hoje ela é fato, e nosso fracasso também é. Fico buscando insistentemente dentro de mim um pouco de coragem e paciência que me ajudem a entender o que se passa sem que a indignação me enevoe os pensamentos. Talvez um olhar empático seja de alguma valia. Imagino então um jovem que, de alguma forma – seja por berço ou por esforço da família – teve condições de arcar com os custos astronômicos de uma das (muitas) novas faculdades de medicina, sendo por este motivo catapultado para uma condição privilegiada dentro da sociedade em que vive (médicos ainda gozam de algum prestígio, embora suas vidas não tenham qualquer vestígio de glamour). Esse jovem faz o que a faculdade exige: comparece às aulas, faz as provas, estuda a contento (suas notas são boas), cumpre as atividades práticas (quando existem). Imagino que ele realmente seja um jovem de boa fé, bem-intencionado – porque, se for mal-intencionado, não há faculdade que dê jeito – e que seu propósito seja ser um bom médico. Ele se forma. Feliz, emocionado, a família colocando nele suas mais belas esperanças. 

Um banho de realidade

Já no início de sua vida profissional, ele recebe seu primeiro choque de realidade: vai muito mal nas provas de residência médica, não conseguindo uma vaga para consolidar sua formação (vagas de residência são muito insuficientes em nosso país). Surpreso com o resultado pífio, até um pouco zonzo, enche-se de coragem e vai enfrentar o mercado de trabalho. Pega um plantão, consegue uma vaga numa clínica, qualquer coisa. Seu CRM o capacita para a atividade médica, disseram, e ele crê. Mas seus dias logo mostram que ele não está preparado para a vida. Sente-se desconfortável diante dos pacientes, não consegue desenvolver um raciocínio clínico pertinente, percebe a frustração dos pacientes com suas condutas ineficazes e sua insegurança. Um certo desespero começa a corroê-lo, sem que ele identifique a origem de sua incapacidade (com uma formação deficiente em muitos aspectos, ele não tem as ferramentas necessárias para compreender que o que lhe falta é muito mais que técnica e experiência). Ele então se vê diante de alguns caminhos possíveis para amainar seu desconforto. Pode tornar-se um solicitador de exames, milhares deles, que lhe trarão respostas para perguntas que não interessam aos pacientes. Isso resulta numa medicina ineficaz, cara e com alto risco de iatrogenias. Pode também seguir os passos dos colegas bem-sucedidos das redes sociais, que vendem cursos nos estilo “5 passos para alavancar seu consultório”, e que fazem a vida prescrevendo soros coloridos, suplementos desnecessários e procedimentos inúteis, sem compreender que isso nada tem que ver com medicina. Ele se transmuta num charlatão sem perceber (lembre-se: ele ainda é um jovem bem-intencionado, presuma-se que não sabe o que faz). Nosso jovem pode ainda ser arrastado pela torrente apelativa das indústrias farmacêuticas, que se aproveitam da sua frágil capacidade crítica para coaptá-lo. Sem se dar conta, ele assume o papel do prescritor que não questiona os dados – o sonho da Big Pharma – disseminando com empolgação tratamentos cujo benefício real é vergonhoso e que podem até mesmo acarretar malefícios às pessoas. Em qualquer dos caminhos pelos quais nosso jovem doutor se embrenhe, o trajeto é claro: estará se afastando cada vez mais do cuidado das pessoas, e dos ideais que um dia o conduziram a escolher a medicina como profissão e missão de vida. Um cenário triste de assistir.

O que falta, o que sobra

Na carência da base sólida que as boas faculdades oferecem – que inclui a técnica, a informação, as habilidades humanas, a ética, o trabalho em equipe -, médicos têm reinventado a medicina. Transformam a arte médica numa atividade empobrecida, ineficaz, ilusória e, muitas vezes, cara. Tentam sobreviver de uma profissão da qual entendem muito pouco, porque exige muito além do que eles tiveram acesso. O paciente não é mais o centro de sua atividade (nunca foi, suas faculdades inauguradas a toque de caixa e sem qualquer fiscalização séria não estavam preocupadas com isso). Para muitos, tudo o que desejam é que o dia de trabalho termine, que não matem ninguém e que não sejam uma grande decepção para quem os quer bem. Posso vê-los atendendo os pacientes quase como autômatos, sem compreender a grandiosidade do que poderiam estar fazendo ali, e fico remoendo em mim a enorme decepção que deve aninhar-se dentro deles. Aos poucos, eles se acostumam (ou se conformam). Convencem-se de que a profissão é isto: uma linha de produção sem qualquer significado mais profundo. Foram enganados, e só se dão conta tarde demais.  

Quem paga a conta

Mais complexa do que a comoção entristecida que o jovem médico bem-intencionado me provoca é minha agonia ao imaginar as pessoas que dependem dos seus cuidados.  Imagino um paciente sentado à frente dele, com suas dores e angústias, sem encontrar no semblante do médico a segurança do cuidado baseado em evidências, a preocupação genuína com sua vida e o olhar empático que faz parte do tratamento. Sinto sob a pele sua frustração, o desolamento de sentir-se desamparado, de significar apenas mais um número numa agenda lotada, de ser mais um transtorno que uma pessoa. Ao não ser enxergado pelo médico que deveria ajudá-lo, ele se sente menos do que é, e recebe menos do que o mínimo. Penso com amargura nas vidas que poderiam ser melhoradas, cuidadas e prolongadas se estivessem sob os cuidados de profissionais mais preparados. Penso em quem morreu, morre e morrerá de condições evitáveis. E, pensando, morro um pouco também.

Num sistema em que negligenciamos a qualidade em nome de aumentar a quantidade, quase todos perdem. Há perdas financeiras (pelo desperdício que a má capacitação promove), perdas emocionais (pelo impacto maligno que a frustração crônica tem sobre a saúde mental de todos os envolvidos) e perda de saúde (sem falar na possibilidade de perdas de vidas). Só quem não perde é quem está oferecendo (e permitindo) cursos de formação médica sem qualquer compromisso com a qualidade e cobrando caro por isso (pensando bem, estes também perderão um dia, quando adoecerem e precisarem dos médicos que eles mesmos formaram). Essa realidade macabra não é uma tragédia fortuita. Nós sabíamos, e permitimos que a saúde se transmutasse nesse trem descarrilhado, nesse caminho doloroso, porque não quisemos fazer o trabalho duro que nos cabia.

O silêncio que grita

Quando digo que todos sabíamos o que vinha acontecendo na formação dos nossos médicos, não me refiro necessariamente a alertas públicos a respeito dos perigos de uma formação médica feita às pressas e sem critério (embora tais alertas tenham existido). Falo de um lugar mais profundo, que é perceptível a cada um de nós enquanto indivíduos – médicos e profissionais da saúde em geral – e que escolhemos invisibilizar. Todos nós sabíamos. Soubemos quando, individualmente, passamos pela experiência desconfortável de conversar com um médico que não olhou para nós durante o atendimento e, muito menos, examinou nossos corpos adoecidos. Quando nossos pacientes começaram a descrever orientações e condutas bizarras dadas por outros colegas, tão disparatadas que custamos a acreditar que o dito profissional tivesse mesmo cursado medicina. Quando passamos a ser procurados por pessoas preocupadas com seus níveis de cobre, de zinco, de vitaminas ou de marcadores tumorais, solicitados no contexto de um “check-up completo”. Quando qualquer tosse no Pronto-Socorro virou sinônimo de “começo de pneumonia, melhor tomar antibiótico.” Quando tristeza, luto, inquietação, frustração e até excesso de alegria viraram doenças que precisam ser medicadas (em vez de acolhidas). Soubemos quando ouvimos médicos se posicionando contra vacinas ou a favor de medicamentos que careciam (muito) de evidências de eficácia, denunciando sem constrangimento sua completa ignorância a respeito de como a ciência funciona. Soubemos quando nossos pais, mães, filhos e amigos nos relataram experiências quase inacreditáveis. Sim, nós soubemos assim que percebemos nos pacientes e em nós mesmos a falta do cuidado que aprendemos a oferecer.

Coletivamente, também sabíamos. Soubemos quando a ostentação de muitos seguidores nas redes sociais passou a ser parte do currículo, determinante para que a sala de espera do consultório não fique às moscas, e também quando deixamos de reconhecer os nomes das faculdades de medicina (porque o número de novos cursos passou a ser inalcançável para nós). Soubemos quando assistimos, estupefatos, ao crescente número de casos de erro médico, e nos consolamos com a ideia de que são exceções. Não são. E serão cada vez menos. O noticiário é apenas um recorte do que vemos todos os dias nos ambulatórios e hospitais. Só vira notícia quem morre ou quando quem sofre de “des”medicina é famoso. As milhares de pessoas tratadas com desrespeito, negligência, imperícia e imprudência jamais viram notícia. Elas apenas perambulam de hospital em hospital, até que tenham a sorte de encontrar um profissional que saiba o que fazer com elas – e que se disponha a fazer. Na ausência da sorte, ficam mesmo ao deus-dará. 

Cavando um pouco mais fundo

Há mais algumas camadas, para além do evidente perigo da má capacitação técnica e humanística, que tornam esse tsunami ainda mais distópico. Falo da profunda carência no que diz respeito ao exercício do senso crítico e à transmissão de valores éticos. O primeiro faz do médico um profissional sensato, com capacidade de avaliar dados científicos com cautela e discernimento, blindando-o (pelo menos um pouco) contra a ferocidade de um mercado que tem como objetivo vender tratamentos, procedimentos e estratégias. Sem senso crítico, o médico alia-se a esse mercado sem resistência, tornando-se parte importante dele, e expondo os pacientes a toda sorte de produtos desnecessários e até deletérios. O senso crítico é a pedra fundamental para que a medicina se diferencie do mero comércio, e seu ensino pelas boas faculdades é cuidadoso e contínuo. O que poderíamos esperar do senso crítico de jovens médicos talhados por um sistema cujo lucro é o objetivo maior, e no qual são relações comerciais que determinam sua sustentabilidade?

Já os valores éticos, esses me provocam alguns calafrios ao tentar vislumbrar a forma como têm sido transmitidos aos nossos futuros médicos…. Mesmo nas faculdades tradicionalmente de excelência, encontramos dificuldades para ensinar ética. Porque aulas, palestras e discussões não dão cabo de sua complexidade. O aprendizado visceral desses valores tão importantes se dá no dia a dia, à beira do leito, observando a forma como os mestres e colegas mais experientes lidam com nossas questões do cotidiano. Vemos a ética permeando a comunicação de uma má notícia, na forma como um professor trata as pessoas (colegas, alunos, funcionários), ouvindo sua visão do mercado de trabalho, conversando sobre as aflições dos pacientes, notando a forma como ele protege as fragilidades de quem está sob seus cuidados. Experienciamos a ética na própria cultura das instituições de ensino, na preocupação de todo um sistema com a segurança, o conforto e o acolhimento das pessoas. A falta de ética é vista com indignação e horror. Aprendemos a ser éticos compartilhando a prática médica com quem o é. A vivência nua e crua da prática médica exercida eticamente nos dá os contornos necessários para a compreensão da nossa imensa responsabilidade nas vidas alheias e, assim, nos mantém mais humildes e atentos. Quem faz esse papel em escolas médicas nas quais o contato com pacientes é ínfimo, mal organizado, mal supervisionado, atropelado por uma rotina que tem como objetivo apenas transmitir a técnica (quando muito)? A resposta para essa incômoda pergunta, frequentemente, é um silêncio constrangedor. E não, não é exagero. Já está acontecendo.

O futuro é ontem

Estamos vivendo uma distopia sinistra que começou quando nos fizemos tão cegos e surdos a ponto de nos tornarmos mudos. Eu sei, nem todos ficamos em silêncio. Não foram poucas as manifestações individuais e coletivas que alertavam para os perigos de se negligenciar a formação dos profissionais de saúde em nome de suprir a demanda por quantidade. Mas tais vozes vêm sendo, uma a uma, caladas (e há tantas formas de se fazer isso, inclusive violentas, que seria necessário um livro inteiro só para citá-las). O fato é que era (ainda é) uma briga desigual: políticas populistas aliadas a um sistema capitalista ávido e irrefreável, diante de um povo desesperado por cuidados, e tudo isso embebido num discurso que transforma os profissionais em vilões corporativistas e elitizados. O resultado tem chegado, como um tsunami. Maus profissionais não resolvem os problemas de saúde das pessoas, eles criam outros problemas, ainda mais graves. Praticam iatrogenias, são incapazes de amparar seus pacientes, geram custos desnecessários e, pasmem, sofrem muito com isso. Pois é, nunca tivemos tantos casos de depressão e ansiedade entre nossos profissionais de saúde (entre os bons e os maus), e os sintomas de burnout se aproximam de 60%. Aqui sim, cabe um minuto de silêncio, por todos nós.

O futuro é hoje

Apesar de tudo, me causa algum alívio ouvir as pessoas falando sobre isso. Reconhecer o problema, ainda que tardiamente, é o passo primordial para resolvê-lo (ou pelo menos amenizá-lo, desacelerá-lo). Vejo por todos os cantos pessoas preocupadas com essas questões e mobilizadas para ajudar a resolver. O desafio é enorme, talvez intransponível, mas é com desafios imensos que a medicina evolui. A História nos mostra isso, e o futuro nos mostrará o que somos capazes de fazer. Hoje, eu só gostaria de me sentar junto ao nosso jovem médico, que permeou meus pensamentos desde o início desse texto, e abraçá-lo. Pedir que nos perdoe por deixá-lo chegar tão longe caminhando sobre passos ilusórios, e ajudá-lo a encontrar seu caminho através das próprias deficiências, mesmo que seja necessário recomeçar. Gostaria (muito) de dar as mãos aos milhares de pacientes e familiares cujo cuidado ficou muito aquém do mínimo aceitável e lhes pedir que tenham a grandeza de nos ajudar a acertar a rota, exigindo mais de nós, não aceitando nada menos do que o que lhes é de direito: competência técnica, respeito, reverência e compaixão. E gostaria, acima de tudo, de poder manter minha própria dignidade, tendo a coragem e a saúde necessárias para resistir. Esse último desejo precisará de muitas mãos para se concretizar. Espero contar com os muitos “médicos sem pressa” espalhados pelo país: que nossa voz não se cale, que nossas mãos não se soltem, que nossos caminhos permaneçam entrelaçados.


Ana Coradazzi: Médica, graduada pela Faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP, com residência médica em Oncologia Clínica e pós-graduada em Medicina Paliativa pelo Instituto Pallium, em Buenos Aires. Atualmente é responsável pela equipe de Oncologia Clínica da Faculdade de Medicina da UNESP, em Botucatu. É autora dos livros No Final do Corredor, O Médico e o Rio (com Lucas Cantadori), De Mãos Dadas: o olhar da Slow Medicine para o paciente oncológico, Slow Medicine: sem pressa para cuidar bem (com André Islabão) e, mais recentemente, O médico sutil.

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Erika
Erika
24 dias atrás

Um texto lindo e necessário! Obrigada por compartilhar seus pensamentos =)

Fernanda
Fernanda
20 dias atrás

Adorei conhecer seu blog, tem muito artigos bem interessantes. entrar no web whatsapp

Simone Dias - RH
Simone Dias - RH
8 dias atrás

Texto profundo, Dra Ana.
Pouco se fala sobre o que existe para além do jaleco limpo e do diploma conquistado com tanto esforço.
A jornada que se inicia não é glamourosa como imaginamos e exige muito esforço e dedicação em uma trajetória muitas vezes solitária.

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