
Por André Islabão
Existe um velho adágio na medicina que diz que o médico que só sabe de medicina, nem de medicina sabe. Isso significa que, dentro dessa compreensão mais holística e humana da atividade médica, a formação do profissional deve ser ampla, indo muito além do conhecimento técnico específico da profissão. E, para aumentar a amplitude desse olhar médico, nada melhor que lançar mão de outros saberes humanos que podem complementar a visão científica da medicina, como a filosofia e as artes. É por isso que os livros escritos por médicos com essa visão mais abrangente de nossa atividade são muito bem-vindos.
Uma das boas novidades literárias no último ano na área de medicina e saúde é o livro Medicina excessiva – suas causas e seus impactos, do médico Guilherme Santiago. Em um livro enxuto e de leitura agradável, o autor discorre sobre os caminhos que nos levaram aos excessos da medicina atual. E, como o autor cita a Slow Medicine como um dos movimentos de resistência contra essa medicina excessiva que dá nome ao livro, nada mais natural que compartilharmos algumas de suas ideias por aqui.
Na primeira parte do livro, o autor faz uma análise cronológica da evolução da medicina, o que ajuda o leitor a compreender as diversas fases do conhecimento (ou da falta dele) e da prática da medicina. Iniciando na época de Hipócrates e sua teoria dos humores e passando pelas grandes contribuições de Avicena e outros sábios na era da medicina árabe durante a Idade Média, chegamos enfim na chamada medicina científica, onde o autor demonstra uma visão mais equilibrada de medicina que busca conciliar a tradição de saberes antigos com a medicina moderna e suas tecnologias.
Nessa parte do livro que aborda a medicina moderna, o autor dedica algum espaço para falar da Medicina Baseada em Evidências (MBE), tanto de seus aspectos positivos – como a sistematização do número gigante de evidências científicas a que os profissionais são expostos – quanto de alguns aspectos negativos – como a transformação da atividade médica em algo excessivamente tecnicista e automático. Ao lembrar que a ciência não é suficiente para o ser humano, o autor novamente defende uma visão ponderada, dessa vez buscando um equilíbrio entre a ciência e tudo o mais que alimenta a busca de sabedoria por parte dos médicos e das pessoas em geral, como a filosofia, as artes e a espiritualidade.
Entre os muitos excessos da medicina atual abordados estão diversas coisas que fazem parte do cotidiano dos médicos, como a cega idolatria das tecnologias (“tecnolatria”), a hipocondria social (talvez uma manifestação do que Ivan Illich chamava de iatrogenia social), a infinidade de rastreamentos duvidosos e a eterna busca por um diagnóstico precoce (que nem sempre é oportuno), além da falácia dos checapes de saúde (que não trazem benefícios comprovados para as pessoas em geral).
Porém, como deve haver alguma razão para que tais excessos se mantenham na sociedade e sejam vistos como benéficos para as pessoas atendidas e para o sistema de saúde, o autor enumera uma série de causas. Entre elas estariam a forma de remuneração dos profissionais (quanto mais exames, consultas e procedimentos executados, maior é seu ganho financeiro), o sequestro gradual dos sistemas de saúde por um complexo mercado que envolve operadoras, indústria farmacêutica e prestadores de serviços e a moderna mercantilização da saúde turbinada pelas redes sociais e seu “mercado de ilusões”.
Como é necessário algum tipo de reação a essa loucura em que foi transformada a medicina moderna, é preciso fazer algo tanto em nível social quanto individual. E é aqui que entra a importância daquelas iniciativas que visam conter os excessos dessa medicina que se tornou ela mesma uma ameaça para a saúde das pessoas e dos próprios sistemas de saúde. Entre tais iniciativas citadas pelo autor, estariam a Choosing Wisely, a Slow Medicine, a Too Much Medicine, a Less Is More e o projeto Pensar Medicina, iniciativa do próprio autor que também visa gerar uma reflexão saudável sobre as maneiras de curar a medicina.
Se uma cura para a medicina atual for realmente possível, precisaremos de um movimento organizado de resistência a todas essas forças que desvirtuaram a mais bela das profissões e que insistem em apequenar os médicos, assustar os pacientes e sugar ao máximo os recursos dos sistemas de saúde. Para isso o autor sugere que os defensores de uma medicina íntegra se organizem em um Movimento de Resistência Hipocrática (MRH), o qual por certo lutará de forma desigual contra poderosos interesses. Porém, como lembra o autor, de que vale a vida sem um ideal para defender e pelo qual lutar? Além disso, é preciso lembrar que defender a medicina hipocrática não é propor o retorno a uma era pré-científica, mas sim defender uma medicina humana que parece ter ficado esquecida em meio a tantas tecnologias, informações e preocupações de ordem pecuniária.No final das contas, o mais importante no fato de o livro de Guilherme Santiago ter sido premiado e devidamente jabutizado em 2025 é o fato de a sociedade organizada ter concedido um prêmio literário acadêmico na categoria de medicina exatamente a uma obra que faz uma crítica contundente ao estado atual da medicina e propõe caminhos para que a medicina consiga equilibrar os imperativos econômicos e tecnológicos modernos com a necessidade evidente de uma visão mais holística e humana para o sofrimento das pessoas. De nossa parte, é claro que o jabuti do autor estará sempre em boa companhia com o caramujo sem pressa da Slow Medicine.
André Islabão: Sou médico internista formado pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) com três anos de residência em Clínica Médica pela Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) na Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. Depois de vários anos dedicado ao atendimento de pacientes hospitalizados, decidi reduzir o ritmo e me concentrar no atendimento ambulatorial, domiciliar e em consultório próprio.
O tempo disponibilizado possibilitou que me dedicasse a outras atividades igualmente importantes, como a vida em família, a música, a tradução de livros médicos, o estudo de saberes diversos e o acompanhamento de pessoas em clínicas geriátricas, onde realizo um trabalho informal de musicoterapia tocando piano regularmente e levando um pouco de alegria aos moradores idosos.
Para mim, a medicina é tanto arte quanto ciência. A fim de humanizá-la e de reduzir alguns excessos, acredito na filosofia slow, em uma relação médico-paciente longeva, na transdisciplinaridade do conhecimento e na análise crítica da ciência. Meu novo ritmo ainda me possibilita compartilhar ideias próprias em meu blog (www.andreislabao.com.br) e em alguns livros publicados: Entre a estatística e a medicina da alma – ensaios não controlados do Dr. Pirro, O risco de cair é voar – mors certa hora incerta, Slow Medicine: sem pressa para cuidar bem, e A arte de espantar dinossauros.
A medicina, por mais que queiram desvirtuá-la, contará sempre com seus idealistas para defendê-la. André Islabão é um desses e veste cada palavra sua com verdade e sentimento. Esta resenha me encheu de emoção e gratidão!
Muito grato, Guilherme!!
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Kkk… até aqui somos bombardeados pela famigerada IA…
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O inferno dos robôs… como sociedade, vamos mal, muito mal, me parece…
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Revigorante passar por aqui e encontrar meus pares. Parabéns pelo texto! Aguardando a chegada do livro “Medicina Excessiva”. Um campo de reflexão, e atuação, onde transito há anos.