
Por: Daniel Rolo
“Frodo:
– Eu gostaria que o anel nunca tivesse chegado até mim. Eu gostaria que nada disso tivesse acontecido.
Gandalf:
– Assim pensam todos aqueles que vivem tempos como este. Mas não cabe a essas pessoas decidirem isso. Tudo o que podemos decidir, é o que vamos fazer com o tempo que é dado a cada um de nós.”
Senhor dos anéis- A sociedade do anel.
A história do mundo é, em geral, contada pelos vencedores. Esse conceito é antigo, mas continua sendo discutido e repetido em rodas de conversa e salas de aula, especialmente nos dias atuais, em que a desconstrução das relações de poder se impõe como uma necessidade social. Com base nisso, torna-se fundamental refletir sobre quem são os vencedores na construção da trajetória humana até a pós-modernidade dos dias de hoje. Para responder a essa questão, vamos colocar em perspectiva a noção de Tempo (sim, Tempo com “T” maiúsculo).
Carl Sagan, o renomado astrofísico norte-americano, propôs o Calendário Cósmico — um modelo hipotético no qual os eventos cósmicos são condensados no espaço de um único ano. Nesse calendário, o Big Bang corresponderia ao dia 1º de janeiro. A Via Láctea surgiria no início de maio, o sistema solar em setembro, a Terra por volta de 14 de setembro e a vida, em 25 de setembro. A partir daí, os organismos evoluem de unicelulares para multicelulares aquáticos, até conquistarem o ambiente terrestre. Os dinossauros surgiriam apenas em 24 de dezembro e seriam extintos por volta de 30 de dezembro. O ser humano apareceria às 22h30 do dia 31 de dezembro. Jesus Cristo nasceria às 23h59min56s e o Renascimento ocuparia o último segundo do ano.
Curiosamente, o Renascimento marca um ponto de inflexão na história — um momento tão significativo que, embora ainda não formalizado na geologia, já conquistou o imaginário popular como o início de uma nova era: o Antropoceno. Até esse ponto final do calendário cósmico, as eras geológicas e as mudanças climáticas eram provocadas por eventos grandiosos, de escala cósmica, completamente alheios à ação humana. Existia, até então, uma distinção clara entre o tempo do universo, o tempo da Terra e o tempo da humanidade.
As ciências humanas — como filosofia, história, sociologia e antropologia — estudam esse tempo da humanidade, marcado pela escrita, pela cultura e pelas relações entre os homens e entre os homens e a natureza. A dominação humana sobre a natureza pode ser simbolicamente narrada a partir do domínio do fogo, quando o ser humano passou a emitir CO₂ na atmosfera. Com o tempo, a humanidade se espalhou pelo planeta. Ainda assim, o uso do fogo para moldar o ferro, aquecer as casas e preparar alimentos não causava, até então, grandes impactos planetários.
Tudo muda quando o homem, movido por engenhosidade e ganância, percebe que pode obter mais lucros com as máquinas a vapor, que impulsionaram a indústria do algodão inglesa no início do século XVII. Essas máquinas, movidas a carvão, altamente poluentes, se espalharam pelo mundo. A Revolução Industrial — símbolo de progresso e orgulho humano — criou a sociedade veloz e dinâmica em que vivemos, mas também plantou as sementes do aquecimento global, uma ameaça existencial à nossa espécie. A poluição causada pelo aumento da concentração de CO₂ na atmosfera acompanha diretamente o crescimento populacional, a elevação do PIB, a expansão dos transportes e das telecomunicações e, mais recentemente, os avanços da Inteligência Artificial.
Nesse cenário, os sistemas de saúde não podem ser ignorados. Se fossem um país, seriam o 5º maior emissor de CO₂ do mundo, respondendo por 4,4% das emissões globais — o equivalente a 2 gigatoneladas de dióxido de carbono, o mesmo que 514 usinas termoelétricas movidas a carvão. Embora a China seja o maior emissor global, os Estados Unidos lideram quando se considera a emissão per capita dos sistemas de saúde, seguidos por Austrália, Canadá e Suíça. China e Brasil, por sua vez, emitem abaixo da média quando ajustado por habitante.
Essas emissões são classificadas didaticamente em três escopos:
Os escopos 1 e 2 são mais facilmente mensuráveis. Já o escopo 3, mais amplo e difícil de quantificar, é o maior responsável pelas emissões. No Brasil, ele representa 73% das emissões do setor saúde, enquanto os escopos 1 e 2 somam 21% e 6%, respectivamente.
Nos últimos anos, o conceito de Ciência do Sistema Terra tem ganhado força, compreendendo a Terra como um sistema complexo e autorregulado, que envolve a Geosfera (atmosfera, criosfera), a Biosfera (oceanos, solos, vegetação) e a Antroposfera (humanidade, sistemas de produção, instituições e economia). Quando um desses elementos se desequilibra, o sistema reage. E, nos últimos 300 anos, o principal agente de desequilíbrio tem sido o próprio ser humano — por meio do uso intensivo de combustíveis fósseis e do desmatamento.
Os efeitos já são visíveis: aumento da temperatura global, eventos climáticos extremos, elevação do nível dos oceanos e maior concentração de CO₂ na atmosfera. Cada uma dessas mudanças representa uma ameaça direta à saúde humana:
Se, por um lado, nossos sistemas de saúde trabalham com a tentativa de melhorar a saúde humana, por outro seu impacto global contribui para a piora da saúde de todos. Hoje, mais do que nunca, é urgente pensar em uma saúde sóbria, justa e respeitosa — não apenas em relação ao paciente à nossa frente, mas também ao planeta como um todo.
Nesse sentido, o Colégio dos Médicos de Família do Canadá propõe quatro princípios para uma prática médica alinhada à saúde planetária:
Em síntese, precisamos construir uma saúde que seja planetária, sóbria, justa, respeitosa, multidisciplinar, orientada a propósitos e atenta às biografias e valores humanos. Uma saúde que proteja os mais vulneráveis e que priorize a promoção e prevenção, antes da medicalização e do consumo.
A história da humanidade está sendo escrita diante de nossos olhos. Somos parte da causa — mas também podemos ser parte da solução. Cabe a nós assumirmos esse protagonismo, para que não sejamos lembrados como os inertes diante da crise climática, mas como aqueles que ousaram mudar o curso da história.
Daniel Rolo é médico em João Pessoa, Pb, especialista em Geriatria e Cuidados Paliativos. Da janela de seu consultório ele vê o mar e de lá, descortina o mundo.
Muito bom o texto, real!
Excelente o texto, do sempre brilhante Daniel Rolo
Excelente reflexão trazida, correlacionando angústias contemporâneas internas do Ser com o nosso bem maior
It’s fascinating how quickly online gaming platforms are evolving in the Philippines! Secure, compliant operations like NustarGame PH (with PAGCOR licensing) are key for trust. Easy access via apps & multiple payment options are a huge plus – check out nustargame ph slot download for a seamless experience!