Slow Medicine e Saúde Planetária: uma questão de tempos

agosto 25, 2025
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8 min de leitura

Por: Daniel Rolo

“Frodo:

Eu gostaria que o anel nunca tivesse chegado até mim. Eu gostaria que nada disso tivesse acontecido.

Gandalf:

– Assim pensam todos aqueles que vivem tempos como este. Mas não cabe a essas pessoas decidirem isso. Tudo o que podemos decidir, é o que vamos fazer com o tempo que é dado a cada um de nós.”

Senhor dos anéis- A sociedade do anel.

A história do mundo é, em geral, contada pelos vencedores. Esse conceito é antigo, mas continua sendo discutido e repetido em rodas de conversa e salas de aula, especialmente nos dias atuais, em que a desconstrução das relações de poder se impõe como uma necessidade social. Com base nisso, torna-se fundamental refletir sobre quem são os vencedores na construção da trajetória humana até a pós-modernidade dos dias de hoje. Para responder a essa questão, vamos colocar em perspectiva a noção de Tempo (sim, Tempo com “T” maiúsculo).

Carl Sagan, o renomado astrofísico norte-americano, propôs o Calendário Cósmico — um modelo hipotético no qual os eventos cósmicos são condensados no espaço de um único ano. Nesse calendário, o Big Bang corresponderia ao dia 1º de janeiro. A Via Láctea surgiria no início de maio, o sistema solar em setembro, a Terra por volta de 14 de setembro e a vida, em 25 de setembro. A partir daí, os organismos evoluem de unicelulares para multicelulares aquáticos, até conquistarem o ambiente terrestre. Os dinossauros surgiriam apenas em 24 de dezembro e seriam extintos por volta de 30 de dezembro. O ser humano apareceria às 22h30 do dia 31 de dezembro. Jesus Cristo nasceria às 23h59min56s e o Renascimento ocuparia o último segundo do ano.

Curiosamente, o Renascimento marca um ponto de inflexão na história — um momento tão significativo que, embora ainda não formalizado na geologia, já conquistou o imaginário popular como o início de uma nova era: o Antropoceno. Até esse ponto final do calendário cósmico, as eras geológicas e as mudanças climáticas eram provocadas por eventos grandiosos, de escala cósmica, completamente alheios à ação humana. Existia, até então, uma distinção clara entre o tempo do universo, o tempo da Terra e o tempo da humanidade.

As ciências humanas — como filosofia, história, sociologia e antropologia — estudam esse tempo da humanidade, marcado pela escrita, pela cultura e pelas relações entre os homens e entre os homens e a natureza. A dominação humana sobre a natureza pode ser simbolicamente narrada a partir do domínio do fogo, quando o ser humano passou a emitir CO₂ na atmosfera. Com o tempo, a humanidade se espalhou pelo planeta. Ainda assim, o uso do fogo para moldar o ferro, aquecer as casas e preparar alimentos não causava, até então, grandes impactos planetários.

Da Revolução Industrial aos dias de hoje

Tudo muda quando o homem, movido por engenhosidade e ganância, percebe que pode obter mais lucros com as máquinas a vapor, que impulsionaram a indústria do algodão inglesa no início do século XVII. Essas máquinas, movidas a carvão, altamente poluentes, se espalharam pelo mundo. A Revolução Industrial — símbolo de progresso e orgulho humano — criou a sociedade veloz e dinâmica em que vivemos, mas também plantou as sementes do aquecimento global, uma ameaça existencial à nossa espécie. A poluição causada pelo aumento da concentração de CO₂ na atmosfera acompanha diretamente o crescimento populacional, a elevação do PIB, a expansão dos transportes e das telecomunicações e, mais recentemente, os avanços da Inteligência Artificial.

Nesse cenário, os sistemas de saúde não podem ser ignorados. Se fossem um país, seriam o 5º maior emissor de CO₂ do mundo, respondendo por 4,4% das emissões globais — o equivalente a 2 gigatoneladas de dióxido de carbono, o mesmo que 514 usinas termoelétricas movidas a carvão. Embora a China seja o maior emissor global, os Estados Unidos lideram quando se considera a emissão per capita dos sistemas de saúde, seguidos por Austrália, Canadá e Suíça. China e Brasil, por sua vez, emitem abaixo da média quando ajustado por habitante.

Essas emissões são classificadas didaticamente em três escopos:

  • Escopo 1: emissões diretas geradas pelas próprias instituições de saúde (por exemplo, consumo direto de energia);
  • Escopo 2: emissões associadas à geração da energia adquirida (energia elétrica proveniente de fontes mais ou menos poluentes);
  • Escopo 3: emissões indiretas, como transporte de insumos, descarte de resíduos, logística e cadeia de suprimentos.

Os escopos 1 e 2 são mais facilmente mensuráveis. Já o escopo 3, mais amplo e difícil de quantificar, é o maior responsável pelas emissões. No Brasil, ele representa 73% das emissões do setor saúde, enquanto os escopos 1 e 2 somam 21% e 6%, respectivamente.

A saúde humana impactada

Nos últimos anos, o conceito de Ciência do Sistema Terra tem ganhado força, compreendendo a Terra como um sistema complexo e autorregulado, que envolve a Geosfera (atmosfera, criosfera), a Biosfera (oceanos, solos, vegetação) e a Antroposfera (humanidade, sistemas de produção, instituições e economia). Quando um desses elementos se desequilibra, o sistema reage. E, nos últimos 300 anos, o principal agente de desequilíbrio tem sido o próprio ser humano — por meio do uso intensivo de combustíveis fósseis e do desmatamento.

Os efeitos já são visíveis: aumento da temperatura global, eventos climáticos extremos, elevação do nível dos oceanos e maior concentração de CO₂ na atmosfera. Cada uma dessas mudanças representa uma ameaça direta à saúde humana:

  • O calor extremo eleva os casos de doenças térmicas, falência orgânica e mortes.
  • Os desastres naturais provocam ferimentos, mortes e sofrimento psíquico.
  • A poluição do ar aumenta as doenças pulmonares e cardiovasculares.
  • Vetores de arboviroses — como Dengue, Zika, Malária e Doença de Lyme — expandem-se para regiões onde antes não existiam.
  • O avanço do mar compromete a qualidade da água, favorecendo doenças como cólera, leptospirose e campilobacteriose.
  • A presença excessiva de CO₂ afeta a produção de alimentos e a nutrição, contribuindo para conflitos sociais, migrações forçadas e agravos à saúde mental.

Se, por um lado, nossos sistemas de saúde trabalham com a tentativa de melhorar a saúde humana, por outro seu impacto global contribui para a piora da saúde de todos. Hoje, mais do que nunca, é urgente pensar em uma saúde sóbria, justa e respeitosa — não apenas em relação ao paciente à nossa frente, mas também ao planeta como um todo.

O que se pode fazer

Nesse sentido, o Colégio dos Médicos de Família do Canadá propõe quatro princípios para uma prática médica alinhada à saúde planetária:

  1. Evitar cuidados desnecessários — aderir à medicina baseada em evidências, desprescrever sempre que possível, questionar rotinas, combater o sobrediagnóstico e avaliar se uma intervenção realmente impacta o desfecho do paciente.
  2. Empoderar os pacientes — promover uma saúde centrada na pessoa, respeitando valores, preferências e escolhas compartilhadas, com boa comunicação e apoio ao autocuidado.
  3. Escolher alternativas sustentáveis — evitar desperdícios, priorizar materiais reutilizáveis, utilizar a tecnologia para reduzir deslocamentos, recusar produtos desnecessários e adotar práticas como a Slow Medicine.
  4. Focar em prevenção — estimular dietas à base de vegetais, prescrever atividades físicas, sociais e ao ar livre, promover campanhas de vacinação e rastreamento de doenças.

Em síntese, precisamos construir uma saúde que seja planetária, sóbria, justa, respeitosa, multidisciplinar, orientada a propósitos e atenta às biografias e valores humanos. Uma saúde que proteja os mais vulneráveis e que priorize a promoção e prevenção, antes da medicalização e do consumo.

A história da humanidade está sendo escrita diante de nossos olhos. Somos parte da causa — mas também podemos ser parte da solução. Cabe a nós assumirmos esse protagonismo, para que não sejamos lembrados como os inertes diante da crise climática, mas como aqueles que ousaram mudar o curso da história.


Daniel Rolo é médico em João Pessoa, Pb, especialista em Geriatria e Cuidados Paliativos. Da janela de seu consultório ele vê o mar e de lá, descortina o mundo.

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Fátima
Fátima
6 meses atrás

Muito bom o texto, real!

Paulo Novita
Paulo Novita
6 meses atrás

Excelente o texto, do sempre brilhante Daniel Rolo

Vitor Schlittler
Vitor Schlittler
6 meses atrás

Excelente reflexão trazida, correlacionando angústias contemporâneas internas do Ser com o nosso bem maior

nustargameph
nustargameph
1 mês atrás

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