
Por José Renato Amaral
“A medicina contemporânea deforma a existência humana quando atribui à ciência moderna o monopólio da verdade sobre o conceito de saúde e doença; ou quando atribui a desfechos meramente quantitativos – tempo de sobrevida, tempo de sobrevida livre de doença, por exemplo – o sentido e o valor de uma vida.” (Pedro Nunes, em A Medicina entre a vida e a Utopia)
Um dia eu andava num desses grandes hospitais de São Paulo e encontrei o Pedro Nunes, meu colega de turma de faculdade, e cardiologista, dos bons. Estava meio apressado, mas considerei que valia a pena fazer uma pausa e tomar um café consigo. De fato, valeu; ele me explicou que estava finalizando a edição de um livro, e adiantou que achava que eu ia gostar, pois até mencionava a Slow Medicine! Fiquei surpreso e feliz, e devo ter mesmo comentado que a Slow Medicine tinha sido ideia de um cardiologista, e nos foi trazida por outro (Dolara e Bobbio, respectivamente).
Enfim o livro, “A medicina entre a vida e a Utopia – ao compasso da ética da responsabilidade de Hans Jonas”, foi lançado em agosto passado, e aborda os desafios éticos impostos pela incorporação maciça da tecnologia pela Medicina. Essencialmente, muito do que discutimos no movimento Slow Medicine gira em torno desse eixo.
Na obra, como o título explica, a questão é abordada sob o prisma da filosofia de Hans Jonas, um filósofo alemão de origem judia, que viveu de 1903 e 1993, ou seja, no epicentro dos horrores da Segunda Guerra Mundial, que demonstrou ao mundo, dentre outras coisas, como a tecnologia pode ser usada para o mal, seja através do genocídio em moldes industriais, como nos campos de concentração (sua mãe morreu num deles) ou de armas nucleares para a destruição em massa.
Durante a guerra, na qual combateu numa unidade do exército britânico, Jonas toma como seu objeto de estudo a “filosofia da vida”, e produz uma coletânea de ensaios sobre “O fenômeno da vida: em busca de uma biologia filosófica”. Nessa obra, refuta tanto o materialismo, segundo o qual se desmontarmos um organismo, qual fosse um relógio, seremos capazes de entender seu funcionamento, bem como se opõe ao dualismo que divide o ser entre corpo e alma. Jonas propõe que a mente e o corpo são um contínuo, e que, essencialmente, um não existe sem o outro. A partir dessa ideia, Jonas critica a ciência que lhe é contemporânea, sobretudo a biologia, por sua premissa cartesiana e mecanicista, insuficiente, portanto, ante ao fenômeno ímpar que é a vida.
Após a guerra, Jonas aprofunda-se na questão da tecnologia como potencialmente destrutiva, e elabora o “Princípio Responsabilidade”, uma teoria que se propôs a satisfazer a demanda ética gerada pelo até então inédito potencial de destruição e extermínio alcançado pela humanidade, inclusive com repercussão sobre gerações futuras. A responsabilidade de Jonas propõe um alcance mais abrangente que o imperativo categórico de Kant (“Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal”), que já lhe parece insuficiente, e poderia ser sintetizada em algo como “Age de modo a que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma autêntica vida humana sobre a Terra”. É interessante que não se trata simplesmente de garantir que haja vida no futuro, mas sim uma autêntica vida humana.
Muito resumidamente, esses temas (princípio vida e princípio responsabilidade) constituem os alicerces da filosofia de Jonas. Pedro Nunes, durante sua graduação em Filosofia, identificou a evidente importância dessa obra para a bioética e, a partir daí, desenvolveu sua pós-graduação, que resultou no livro recém-publicado.
Não se trata de um livro de leitura tão ligeira, afinal, estamos falando de uma dissertação de mestrado em Filosofia. Seguramente, é de leitura mais fácil de que os textos originais sobre os quais Pedro fundamenta sua dissertação, e o fato de ele ser, antes de um filósofo, um médico, deve ter ajudado muito no seu êxito em produzir um texto acessível ao leitor leigo, que nos guia através uma obra tão rica e necessária.
Ao longo do livro, Pedro nos apresenta a concepção filosófica de Jonas e demonstra sua importância para o debate bioético contemporâneo. Logo na introdução à sua obra, Pedro reproduz um trecho do conceito de Slow Medicine, disponível neste site (slowmedicine.com.br/conceito):
“Os médicos sentem-se desconfortáveis e frustrados pela qualidade de seu trabalho, com a permanente sensação de que o controle de sua atividade lhes escapa. O paciente sente-se como um joguete nas mãos de uma imensa máquina que kafkianamente o consome, não resolve seu problema e eventualmente o agrava. O uso inapropriado da tecnologia, com os exames complementares e procedimentos de alta complexidade toma a frente na atenção médica, gerando a conhecida situação descrita no ditado: “a carroça na frente dos bois”. Na prática médica cotidiana observamos frequentemente esta situação. Trata-se de uma cultura enraizada nos nossos dias: o paciente troca breves palavras com o médico e lhe entrega um enorme fardo de exames”
Pedro conclui que o desconforto e a frustração experimentados por médicos e pacientes são frutos da submissão a um poder externo à relação médico-paciente, o poder da tecnologia, e situa a demanda por uma nova ética médica justamente a partir da incorporação maciça da tecnologia à prática da medicina. O colega encontra em Jonas, que já houvera analisado tal questão em obras como “Técnica, medicina e ética: sobre a prática do princípio responsabilidade”, propostas para suprir essas novas demandas. Por exemplo, nos primórdios da consolidação do que hoje chamamos bioética, Jonas considerava insuficientes princípios consagrados como autonomia, beneficência, não maleficência e justiça, por não considerarem a profunda desigualdade de poder entre as partes e a vulnerabilidade intrínseca do ser vivo. Pedro nos recorda também que a ética que remonta a Hipócrates foi elaborada dentro de uma concepção filosófica na qual a natureza era perfeita e a doença representava um desequilíbrio entre os quatro humores vitais, cabendo ao médico restaurar esse equilíbrio, de modo que sua ação devia ser pautada pelo respeito ao indivíduo e à natureza, da qual fazia parte, enquanto atualmente “a medicina não mais se restringe à restitutio ad integrum, mas se lança à transformatio ad optimum, ou seja, à busca de perfeição humana em sentido anatômico, fisiológico, cognitivo e até moral”.
A Jonas, preocupavam também situações como a apropriação da morte pela medicina, através de definições técnicas como morte encefálica, bem como da abrangência da medicina para além do escopo do alívio do sofrimento e da cura, um tema muito pertinente, aliás, para uma sociedade obcecada com desempenho.
Jonas postula que, se por um lado a medicina atual é um dos frutos mais notáveis da união da ciência com a tecnologia moderna, por outro, o materialismo científico e o emprego maciço da tecnologia trouxeram consigo a perda de dignidade do organismo, que passa a ser analisado como uma máquina passível de controle e aperfeiçoamento. O poder sem precedentes da tecnologia biomédica, que transformou o exercício da medicina em um empreendimento coletivo com impactos de longo alcance é visto por Jonas como uma “vontade de poder” ilimitada que recusa um sentido de perfeição natural, bem como ignora a finitude e a mortalidade essenciais à vida humana.
Jonas ainda manifestou preocupação com o uso de intervenções neurofarmacológicas para controlar comportamentos julgados “inconvenientes” pela sociedade. Para ele, substituir o caminho humano de enfrentar problemas por mecanismos impessoais retira a dignidade dos indivíduos, transformando sujeitos responsáveis em “sistemas programados de conduta”.
Um dos aspectos centrais da filosofia de Jonas é a crítica ao caráter utópico da tecnologia, identificada como um valor positivo que transforma o agir técnico em uma tarefa não apenas justa, mas moralmente obrigatória, porquanto fruto do pressuposto que o progresso tecnológico resulta num futuro “sempre melhor”. Para Jonas, o humano verdadeiro sempre existiu em toda a sua ambivalência e grandeza, e nunca precisou de uma perfeição futura para ter dignidade.
No último capítulo de seu livro (“Utopia tecnológica e medicina – tensões e respostas à luz do pensamento de Hans Jonas”), Pedro explica como identificou no movimento Slow Medicine uma crítica à invasão da medicina pela utopia tecnológica: Julgamos o movimento Slow Medicine como paradigmático de uma ampla e estruturada proposta ética que remete a muitos pressupostos da ética jonasiana, e conclui o texto revisando a história do movimento no Brasil e no mundo.
O Pedro trabalha num dos hospitais de ponta em São Paulo, portanto, fala sobre medicina e tecnologia a partir de um ponto de vista privilegiado, pois a tecnologia médica lhe é bastante familiar e disponível. Há tempos vejo-o como uma referência confiável em cardiologia porque reconheço sua prática como sóbria, justa e respeitosa, mas não suspeitava que ele estivesse tão envolvido com as ideias da Slow Medicine. Eu sabia que ele se embrenhara pelos caminhos da filosofia, mas não imaginava que fosse chegar tão longe. Sua obra trouxe-me ideias novas sobre problemas antigos, e sempre é bom encontrar colegas que nos inspiram. É sempre um alento perceber que ainda há bastante profissionais mais preocupados com a essência da profissão que com o sucesso comercial.
No lançamento do livro o Pedro comentou sobre sua simpatia com a Slow Medicine por sua proposta mais conservadora e respeitadora de uma perfeição que já seria inata à vida. Eu tinha acabado de adquirir o livro, ainda não o lera; achei essa formulação ao mesmo tempo muito bela e exata. Sua experiência na prática clínica e a solidez de sua formação em filosofia certamente concorreram para a produção de uma obra ímpar, extremamente relevante e totalmente alinhada com os princípios da Slow Medicine. É uma leitura enriquecedora, que nos traz muita reflexão, certamente bastante gratificante para quem se dispuser a “ler sem pressa”.
Referências:
– Nunes, Pedro. A Medicina Entre a Vida e a Utopia: ao Compasso da ética da Responsabilidade de Hans Jonas. Alameda, 2025
Nota: as citações às obras de Hans Jonas no texto foram derivadas da obra de Pedro Nunes, mas suas referências mais precisas são:
– Jonas, Hans. O princípio vida: fundamentos para uma biologia filosófica. Vozes, 2004
– Jonas, Hans. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Contraponto; 2006
– Jonas, Hans. Técnica, medicina e ética: sobre a prática do princípio responsabilidade.Editora Paulus, 2013.
José Renato Amaral é médico (clínico e geriatra) e professor.