
Por Vera Anita Bifulco & Carla Rosane Ouriques Couto
“Cuide dos meios que o fim cuidará de si mesmo” (Ghandi, M)
Ao trabalharmos na educação de médicos e profissionais de saúde tendo como diretriz o Método Clínico Centrado na Pessoa, temos alguma dificuldade diante da questão do aluno: “depois de ouvir o paciente, compreender seu contexto familiar e social, o que devo dizer?”
O que devo dizer ao meu paciente? Que possa lhe trazer algum bem, ou pelo menos que não lhe faça mal? A resposta não está nos livros de Medicina e está longe de se esgotar nas prescrições medicamentosas e nos aconselhamentos de prevenção.
Esse dilema se torna mais angustiante em Cuidados Paliativos, diante da certeza da proximidade do fim da vida. A narrativa de “Enquanto Vivo” traz algumas possibilidades, algumas inusitadas, em relação a comunicação clínica, através do relato do encontro de Benjamin, um paciente de 39 anos e seu médico oncologista, Dr Eddí. Benjamin tem um câncer de pâncreas em estágio avançado. É um ator, que se considera fracassado, e no momento leciona teatro para um grupo de jovens. É bom no que faz, mas não sabe disso. Escolhe lidar com seus significantes mais negativos.
O ator Gabriel A. Sara (Eddí) é realmente um oncologista, atuante no Hospital Mount Sinai West, em Nova York. Não sabemos o quanto há de Gabriel no papel de Eddí. O filme inicia com uma sessão de discussão de equipe, chefiada por Eddí. Cada profissional relata seus casos da semana, e sua dificuldade em encontrar as palavras para as situações de cada paciente: “não encontrei palavras, só dei lenços de papel…”. Eddí diz que cada paciente planeja sua hora de partir, com quem deve estar e como. Cada um tem uma “boa hora”.
Outra questão nas reuniões é se o profissional pode ou deve chorar diante do paciente. A resposta é sim, desde que não perca o controle, chorando para além do paciente. As seções, no estilo dos Grupos Balint, terminam com cada um resumindo numa palavra, suas emoções. Em sequência, acontece a música, onde os próprios profissionais tocam e cantam. Esses momentos são cotidianos no serviço onde Benjamin tem a felicidade de ser admitido.
Benjamin é solitário, e tem como família, somente a mãe. Os dois são recebidos por Eddí e pela enfermeira Eugénie. Após escutar os dois, perguntas relevantes são feitas: o que sabe sobre sua doença, como vê sua vida com a doença, quer saber o tempo até o câncer vencer? Eddí opta por lidar com a verdade inteira: o câncer vai vencer. Pergunta se Benjamin sente culpa ou vergonha, e afirma que ele não é uma estatística, e que estará com ele na estrada até o fim. Benjamin nota que o médico usa gravatas temáticas, e ele confirma: escolhe as gravatas de acordo com as preferências e valores de cada paciente, numa estratégia de conexão bem-humorada.
À mãe o médico diz: “fique com ele, ame-o, ele é o protagonista e o herói dessa história”. Eddí entende que a angústia da família é “fazer tudo”. Mas lembra que esse tudo não pode ser jogado em cima do paciente, ele precisa caminhar por si.
A metáfora que o médico utiliza para orientar o paciente a resolver suas pendências de vida e preparar as pessoas é “limpar a mesa”. Na “mesa” de Benjamin, como de todos nós, há uma série de desencontros, rupturas, remorsos, perdas e silêncios. Há um filho adulto não assumido, criado em outro país. Eddí lembra Benjamin a todo o momento: “limpar a mesa ajuda”.
Porém para o paciente Benjamin, o filho faz parte de sua conclusão sobre uma vida sem realizações. Sua fala é: “vou partir como cheguei ao mundo, sem ter vivido intensamente, sem deixar nenhuma marca”. Recusa contato com o filho, que informado pela avó, viaja até o hospital onde está o pai. A equipe respeita o silêncio de Benjamin, mas acolhe o filho, conversa sobre a importância desse contato, antes da partida do pai. São lindas as cenas dessa conversa, entre o médico e o filho do paciente, permeadas pela dúvida de Eddí, se deve ou não dizer ao paciente que o filho está ali. O filho também recua, mas acaba doando sangue ao pai, em sigilo. Benjamin pensa que contactar o filho seria abandoná-lo mais uma vez. Porém reconhece a paternidade juridicamente.
O trabalho em equipe é focado de forma especial. São seres humanos, com suas dores, medos e paixões. Um tema que poucas vezes é discutido é o envolvimento afetivo entre profissionais e pacientes. Essa temática aparece no amor de Eugénie por Benjamin, tornando a partida deste ainda mais complexa e dolorosa para a enfermeira. De alguma forma Eugénie também olha para a mesa de sua vida. Esse é um efeito colateral para quem lida com pacientes em cuidados paliativos. A consciência do tempo invade a psiquê. Cada profissional se pergunta repetidamente: e eu? Que estou a fazer de minha vida e de meu tempo? O que ando repetindo sem chegar a lugar nenhum?
A música está em todo o cenário de cuidados, como conexão, esperança, consolo e alegria. Após alguma resistência, Benjamin e a mãe percebem a música como terapêutica. De início a alegria musical parece ameaçar o mergulho na melancolia, mas com o tempo ela se integra aos cuidados e é aceita. Eddí diz que cinco expressões são necessárias a qualquer momento, na travessia ou no fim: “me perdoe, eu te perdoo, eu te amo, obrigado e adeus”. É preciso dizer o que importa, e dar ao paciente permissão para partir. Este é o maior presente amoroso que a família pode oferecer. É preciso que os profissionais de saúde tenham a disponibilidade e a coragem de pronunciar e ouvir estas palavras, valorizando o tempo, princípio em essência do movimento Slow Medicine. Há um tempo para o vínculo, e um tempo para a despedida.
As últimas palavras que o médico, mãos entrelaçadas, diz a Benjamin são: “estou orgulhoso de você, do caminho que você percorreu, vou sentir saudades, foi um privilégio ser seu médico”. Cada estação dessa jornada foi vivida ombro a ombro, pelo paciente e pela equipe. Não há no médico o sentimento de derrota. Como é uma caminhada que termina invariavelmente em despedida, requer da equipe um mínimo de posicionamento e lucidez diante do enigma da morte. Para que o paciente parta em paz, é preciso que a equipe permita, reconheça o momento e o contexto. Foi o que possibilitou a partida de Benjamin ao lado do filho, com a música mais significativa de sua vida, no seu tempo.
O paciente foi o norte de todo o cuidado, não um paciente genérico, mas em especial Benjamin, com a carga de sua vida, suas dores e seus mistérios. Cada jornada é única e a equipe multiprofissional surge como um recurso da maior importância. Cada palavra dita ao fim de cada discussão de caso irá compor esse cuidado, como uma melodia composta pelas notas singulares de cada profissional. O plano de cada especialista da equipe será conectado por essas notas, orientadas pelo respeito a dignidade do paciente.
O processo de doença, seja qual for, pode ser um ponto de mutação para uma vida com muito mais consciência e significado. Tudo o que vive está destinado a morrer. Somos todos seres de falta, estruturados pela linguagem. A palavra é fundante desde sempre, até o fim. Cabe a quem cuida estar presente e vivo por inteiro, para que as palavras finais sejam bem(ditas), para que a partida tenha um sentido construído na travessia, para quem fica e para quem vai. Não há receita, há que ter disposição e coragem para sentir-se humano.
“Não tem receita. Tem você, com todo seu conhecimento (…). É uma grande viagem! Aquilo que cada um vive, é dele, é especial”. Guimarães Rosa.
Ficha técnica do filme
Título no Brasil: Enquanto Vivo
Título original: De son vivant
Direção: Emanuelle Bercot (2021, França)
Protagonistas: Catherine Deneuve, Benoit Magimel e Gabriel Sara
VERA ANITA BIFULCO. Psicóloga, psico-oncologista, Mestre em Ciências pela Unifesp-EPM. Psicóloga integrante do Ambulatório de Cuidados Paliativos da Unifesp. Co-organizadora dos livros: Câncer: uma visão multiprofissional e cuidados paliativos: um olhar sobre as práticas e as necessidades atuais; Cuidados Paliativos – conversas sobre a vida e a morte na saúde. Membro participante do Movimento Slow Medicine Brasil. Coordenadora do Comitê de Cuidados Paliativos da SBPO.
CARLA ROSANE OURIQUES COUTO. Médica de Família e Comunidade, Sanitarista e Pediatra. Especialista em Saúde do Trabalhador, Educação Médica, Gerenciamento de UBS, Terapia de Família e Casais e Psicanálise. Mestre em Psicologia Social. Em formação no Círculo Psicanalítico de Minas Gerais. Psicanalista em atividade. Produtora de conteúdo: Cinema & Terapia. @carlarosanecouto. Aprendendo a ser temporária e mortal.
Belo e inspirador texto!!
Parabenizo as autoras e lhas agradeço!
Obrigada!!!
Parabéns, Vera querida e Dra. Carla.
Obrigada por compartilharem o seu conhecimento; este, que sempre muito me acrescenta.
Adorei, belíssimo! Obrigada por compartilharem
Que bela resenha! Emocionante jornada. Grata pela partilha!