Entre a ciência e a vida real

julho 13, 2026
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Por André Islabão

“A vida, ela mesma, fica um pouco mais além das coisas que falamos sobre ela. A vida é muito mais que a ciência.” 

(Rubem Alves)

Quem acompanha as reflexões publicadas pela Slow Medicine Brasil já terá visto a sugestão de que a própria ciência que embasa as condutas médicas também deveria adotar uma postura menos apressada. Essa chamada Slow Science respeitaria o tempo necessário para que o conhecimento cuidadosamente gerado pelos estudos amadureça e ganhe credibilidade ao ser analisado e replicado por outros pesquisadores. Foi exatamente durante essas pesquisas sobre o tema da replicabilidade da ciência que me deparei pela primeira vez com o trabalho de Olavo Amaral, mas não sabia até aquele momento que, além de dedicar-se à árdua tarefa de pregar a transparência e a replicabilidade entre cientistas e médicos, Olavo estava também gestando um belo livro sobre algumas das fragilidades da medicina atual.[1]

Em Na saúde e na doença – A medicina entre a ciência e a vida real, o autor optou por escolher quatro tópicos e, através deles, abordar diversos aspectos da medicina e de sua interação – nem sempre harmoniosa – com a ciência. No primeiro deles, intitulado “Novembro cinza”, Olavo discorre sobre um dos mais famosos entre tantos meses coloridos em nome da conscientização para doenças. Em grande medida, a ideia aqui se aplicaria também às outras campanhas e meses coloridos. No caso específico do “novembro azul” e do exame de PSA, o autor lembra que a ciência atualmente disponível deveria desaconselhar seu uso como prática universal para rastreamento de câncer de próstata. Porém, ainda que várias organizações de fato desaconselhem tal conduta, o rastreamento segue sendo amplamente oferecido e, o que é pior, durante o ano todo. Segundo o autor, um dos motivos para esse descompasso seria a incerteza inerente à ciência, com a discrepância entre a realidade populacional dos ensaios clínicos e aquela do paciente individual atendido pelos médicos, criando uma zona cinzenta e cheia de incertezas onde os profissionais tentam exercer sua função da melhor maneira possível.

Em “Meu cérebro e eu”, o autor trata da explosão de diagnósticos psiquiátricos nas últimas décadas provocada pela expansão desmesurada do DSM e o consequente risco de medicalização da vida diária. Aqui Olavo alerta o leitor, entre outras coisas, para o fato de que a narrativa do “desequilíbrio de neurotransmissores” como causa da depressão jamais foi comprovada, lembrando ainda que os próprios medicamentos usados para tratar a doença podem desequilibrar os neurotransmissores cerebrais. E, no final das contas, o autor nos recorda que os diagnósticos psiquiátricos não passam de construtos abstratos, e o que importa realmente são as pessoas de carne e osso que sofrem e precisam cada vez mais de ajuda.

No capítulo “n = 1” o autor aborda a chamada “medicina de precisão”, com todos os mitos envolvidos nessa empreitada tão afeita a exageros e heterodoxias por parte dos profissionais de saúde. Aqui são abordados temas tão atuais como a oferta de testes genéticos de relevância duvidosa diretamente ao consumidor, a enxurrada de wearables acumuladores obsessivos de dados e os inúmeros charlatães que engordam suas contas bancárias vendendo intervenções baseadas em uma ciência para lá de discutível. Conforme o autor, as conclusões e previsões baseadas neste universo de dados de significância incerta teriam a mesma acurácia que um mapa astral preparado por algum místico. O autor lembra ainda que a profusão de dados que algumas pessoas atualmente coletam sobre si mesmas pode gerar, na melhor das hipóteses, apenas um panorama caótico e egocêntrico que se poderia chamar mais adequadamente de “narcisoma”.

A última parte do livro, “Cientistas sonham com cloroquinas elétricas?”, é dedicada à pandemia recente com ênfase especial nas interações entre política e ciência, com todos os danos causados em ambas as áreas. A influência perniciosa das redes sociais sobre a sociedade durante a pandemia não poderia ficar de fora, e Olavo nos recorda de fatos bastante lamentáveis daquela época, como quando o Instagram censurou a Cochrane por publicar “desinformação”. Ainda há espaço para lembrar dos estudos claramente fraudulentos publicados por periódicos “sagrados” como o Lancet e o New England Journal of Medicine (o famoso escândalo da Surgisphere), o que seguramente colaborou para a perda de credibilidade da ciência acentuada pela pandemia. Para o autor, a maior lição da pandemia talvez tenha sido a percepção da importância de dialogarmos de maneira civilizada com pessoas que pensam diferente de nós, algo que tem sido benéfico à humanidade há vários séculos e que parece ter sido simplesmente esquecido na era das redes sociais.

Olavo trocou a medicina pela ciência há vários anos, o que faz com que seu ponto de vista esteja em algum lugar intermediário entre a prática clínica e a produção científica. Outro trunfo do autor é ter experimentado na própria pele muitas das intervenções analisadas no livro. Assim, Olavo participou de congressos médicos, submeteu-se a testes genéticos, escutou conselhos de chatbots e, até mesmo, consultou com especialistas das mais diversas áreas, apenas para poder falar com mais propriedade sobre as fraquezas encontradas no sistema médico-científico atual.

Se o objetivo do livro era analisar em detalhes e de maneira divertida as interações complexas entre medicina e ciência, Olavo certamente alcançou seu objetivo. Seu livro também mostra que a ciência e a medicina estão longe de serem imunes a influências externas. O sociólogo Pierre Bourdieu[2] dizia que, no mundo real, não temos nem uma “ciência pura” – uma ciência absolutamente imparcial e autônoma que trabalha alheia a demandas políticas e sociais – nem uma “ciência escrava” – a qual carece totalmente de autonomia e serve apenas aos interesses de quem a financia –, mas sim algo intermediário. Assim, a ciência real – e, em especial, a ciência médica – será sempre influenciada, em alguma medida, por fatores alheios a ela. O que a leitura deste livro deixa claro é que, se a medicina é de fato influenciada pela ciência, então nossas condutas serão inevitavelmente influenciadas por aspectos externos, como aqueles econômicos, políticos ou sociais. Para o bem ou para o mal.


Bibliografia:

[1] Amaral, Olavo. Na saúde e na doença – A medicina entre a ciência e a vida real. Objetiva. Rio de Janeiro, 2025.

[2] Bourdieu, Pieere. Os usos sociais da ciência – Por uma sociologia clínica do campo científico. UNESP. São Paulo, 2004.


André Islabão: Sou médico internista formado pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) com três anos de residência em Clínica Médica pela Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) na Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. Depois de vários anos dedicado ao atendimento de pacientes hospitalizados, decidi reduzir o ritmo e me concentrar no atendimento ambulatorial, domiciliar e em consultório próprio. 

O tempo disponibilizado possibilitou que me dedicasse a outras atividades igualmente importantes, como a vida em família, a música, a tradução de livros médicos, o estudo de saberes diversos e o acompanhamento de pessoas em clínicas geriátricas, onde realizo um trabalho informal de musicoterapia tocando piano regularmente e levando um pouco de alegria aos moradores idosos. 

Para mim, a medicina é tanto arte quanto ciência. A fim de humanizá-la e de reduzir alguns excessos, acredito na filosofia slow, em uma relação médico-paciente longeva, na transdisciplinaridade do conhecimento e na análise crítica da ciência. Meu novo ritmo ainda me possibilita compartilhar ideias próprias em meu blog (www.andreislabao.com.br) e em seus livros publicados: Entre a estatística e a medicina da alma – ensaios não controlados do Dr. PirroO risco de cair é voar – mors certa hora incerta, A Arte de Espantar Dinossauros e Slow Medicine: Sem Pressa Para Cuidar Bem.

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