Entre a descoberta e a promessa: como falar sobre saúde e longevidade sem vender (ou destruir) ilusões

julho 28, 2026
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Por Elizabete Band

“Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento? Onde está o conhecimento que perdemos na informação?” (T. S. Eliot, The Rock)

Trabalho como médica infectologista em um ambulatório de pessoas que vivem com HIV. Recentemente, alguns pacientes chegaram me perguntando como utilizar a DoxiPEP, profilaxia com doxiciclina após a exposição sexual para reduzir o risco de algumas infecções sexualmente transmissíveis bacterianas. Eles conheceram essa estratégia por sites, vídeos e redes sociais, e não por campanhas institucionais. E a informação que traziam não era falsa. A DoxiPEP é real, baseada em estudos clínicos e recomendada para determinadas populações. Em 2026, o Ministério da Saúde ampliou seu uso no SUS para prevenção de sífilis e clamídia, e a Organização Mundial da Saúde publicou recomendação condicional, com ênfase no acompanhamento e na vigilância da resistência antimicrobiana.

Esse é um dos desafios da medicina contemporânea: os pacientes não chegam apenas com sintomas. Chegam com estudos, reportagens, protocolos, depoimentos e nomes de tratamentos. Algumas informações são falsas; outras, incompletas. E algumas são corretas, mas sem contexto suficiente para decidir se uma intervenção é adequada para aquela pessoa. No caso da DoxiPEP, saber que ela existe é apenas o começo. Precisamos discutir para quem os benefícios foram demonstrados, quando deve ser utilizada e como integrá-la ao rastreamento das ISTs e às demais formas de prevenção. Também entram na conversa efeitos adversos, adesão, impacto em microbioma e possível seleção de resistência. Nada disso cabe em um vídeo de um minuto, nem de dois, ou de três. O paciente pode ter encontrado uma informação verdadeira e ainda assim não ter tudo o que precisa para fazer uma escolha com autonomia real. É nessa distância entre informação e decisão que o encontro clínico, sem pressa, se torna essencial.

A internet ampliou o acesso ao conhecimento, mas não eliminou a necessidade de interpretação. O paciente que pesquisa muitas vezes está tentando participar do próprio cuidado ou encontrar respostas que o sistema de saúde a que ele tem acesso ainda não conseguiu oferecer. Muitas vezes a informação chega a ele passivamente, sem que procure ativamente. Sobra informação, e, sobretudo, desinformação. Acredito que a principal questão não seja simplesmente ensinar (ou convencer) as pessoas a “não acreditar na internet”. Pesquisadores, sociedades médicas, empresas, influenciadores, associações de pacientes, sites de notícias e órgãos públicos comunicam ciência a partir de interesses diferentes. Isso influencia o destaque dado aos resultados, aos riscos e ao grau de certeza transmitido. Cabe ao profissional que atende a pessoa transformar informação em discernimento: nos tornamos tradutores de um mundo excessivo.

Esse papel é ainda mais importante quando falamos de longevidade, envelhecimento e bem-estar. Todos os dias surgem novas notícias sobre substâncias que retardam o envelhecimento, exames que revelam a tal da “idade biológica”, tratamentos que devolvem a energia e a juventude. A sensação é de que estamos sempre atrasados, como se existisse um protocolo perfeito de longevidade que ainda não descobrimos, ou que ainda não conseguimos pagar – mas agora, com descontos do cupom no link da bio ou parcelando em vinte quatro vezes, aproveitando a oferta única… agora vai!

Essa confusão não ocorre apenas porque as pessoas são ingênuas ou não têm letramento científico. Ela surge porque a ciência é complexa e provisória. Já a comunicação pública favorece mensagens simples, novidades e resultados rápidos, muitas vezes em busca de cliques, engajamento e monetização do conteúdo. Uma descoberta legítima pode começar com estudos em células, animais ou pequenos grupos. Pode identificar um mecanismo plausível, uma associação ou uma mudança laboratorial, mas ainda estar distante de provar que uma intervenção fará alguém viver mais, adoecer menos ou preservar a autonomia. Entre “existe um mecanismo possível” e “isso funciona para você” há um longo caminho. É nesse espaço que surgem falsas promessas: um estudo preliminar vira tratamento, uma associação é apresentada como causa e uma mudança em um exame torna-se “rejuvenescimento”. A linguagem científica permanece, enquanto a prudência desaparece. Muitos biomarcadores moleculares do envelhecimento são promissores para pesquisa, mas ainda não estão validados para orientar decisões clínicas individuais ou demonstrar aumento da sobrevida.

A longevidade toca em medos humanos: adoecer, perder autonomia, desenvolver demência ou não ter tempo suficiente para tudo que queremos fazer. Quem promete controlar esses riscos vende não apenas cápsulas, exames ou procedimentos, mas a sensação de segurança e de domínio sobre o futuro. Por isso, simplesmente chamar uma proposta de “pseudociência” nem sempre ajuda. Antes de corrigir a informação, precisamos compreender o que a pessoa busca. Por trás do pedido por hormônios, suplementos ou exames sofisticados,pode existir uma necessidade legítima ainda não escutada. O que realmente a pessoa está buscando? De onde vêm suas necessidades? A consulta pode então se tornar um espaço de tradução, o que requer muitas perguntas. A intervenção foi estudada em seres humanos? O benefício apareceu em sintomas, função, redução de doenças ou sobrevida, ou apenas em um marcador? Os resultados foram reproduzidos? Os riscos foram investigados? Quem financiou o estudo? Quem está divulgando vende o produto? Qual é o benefício real e quanto custa? Um tratamento não se torna inútil por ser novo, nem eficaz apenas por ser novo. Intervenções experimentais podem demonstrar benefícios no futuro, mas a incerteza existe e deve ser apresentada como tal. Quem oferece um tratamento caro, invasivo ou arriscado deve demonstrar que seus benefícios superam os potenciais danos. Isso é bioética. Essa é a base do cuidado em saúde.

A Slow Medicine não propõe rejeitar inovação. Propõe reduzir a velocidade entre a descoberta e a prescrição, criando tempo para perguntar se uma intervenção é necessária, segura, proporcional e coerente com os valores daquela pessoa. Esse cuidado é especialmente importante na prevenção e na longevidade, áreas em que pessoas saudáveis podem ser transformadas em pacientes permanentes. Novos testes geram achados, procedimentos, gastos e ansiedade. A possibilidade de medir algo não significa que seja útil medi-lo, e modificar um número não significa necessariamente melhorar uma vida. Enquanto isso, práticas menos glamourosas continuam fundamentais: não fumar, realizar atividade física, alimentar-se adequadamente, dormir, vacinar-se, controlar pressão, diabetes e colesterol quando indicado, cultivar vínculos, tratar o sofrimento psíquico e ter acompanhamento clínico consistente. Ajudar o paciente a navegar nesse cenário não significa decidir por ele, mas respeitar sua autonomia e apresentar, com clareza, o que sabemos e o que ainda não sabemos.

Envelhecer não é uma falha de desempenho. Longevidade não deveria ser medida apenas pelo número de anos, mas pela possibilidade de preservar sentido, autonomia, presença e relações. Diante de tantas descobertas e promessas, nosso papel é ajudar cada pessoa a separar informação de conhecimento, hipótese de evidência, benefício de propaganda e cuidado de exploração do medo. Às vezes, a conduta mais científica não é acrescentar uma nova intervenção. É parar, escutar, contextualizar e decidir com calma. Porque uma medicina comprometida com a longevidade precisa, antes de tudo, estar comprometida com a vida que está sendo vivida agora.


Elizabete Band: Nasci em Salvador, a Roma negra. Criança, queria ser bióloga – era o amor pelo mar! – ou escritora; virei médica. Médica, me encontrei no estudo das doenças infecciosas. Me formei na UFBA na virada do milênio quando nos prometiam tecnologias que melhorariam o mundo. A realidade que se desenhou foi outra: excessos, pressa, mecanização de tudo. Após me titular pela Sociedade Brasileira de Infectologia pausei tudo e fui ser mãe do Gael. Com ele aprendi muitas coisas, inclusive sobre o tempo e essa pressa que estava tomando tudo. E fui entendendo que meu tempo é o da calma.
Hoje sou infectologista e também paliativista em construção, após aperfeiçoamento pelo Instituto Paliar em 2018. Trabalho atendendo pessoas que vivem com HIV em um centro de referência estadual e com infectologia geral em consultório. Visito pacientes em domicílio – e com eles aprendi tantas coisas sobre o tempo! Faço parte do SCIH do Hospital Aristides Maltez, centro oncológico que é totalmente filantrópico, 100% SUS e que nunca desde sua criação fechou as portas. Sou apaixonada por histórias e por história, por viagens, conhecimento e movimento constante. E por escrever também.
Tento juntar tudo que fui aprendendo no caminho em todas as minhas práticas – pessoais e profissionais. Acredito na vida e no trabalho calmo, prudente, respeitoso, amoroso. Acredito no um feito de muitos, no cuidado feito por múltiplos olhares. E acredito principalmente na escuta e no poder das palavras como fonte de transformação.

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