
“O campo de batalha exige do médico não apenas habilidades técnicas, mas também uma ética que se opõe ao próprio contexto que o rodeia. A medicina de guerra é uma prática de compaixão em meio ao caos.”
– Jonathan Shay em “Achilles in Vietnam: Combat Trauma and the Undoing of Character“
Reza a lenda que, quando questionado por um oficial alemão da Luftwaffe nazista se ele havia pintado a obra Guernica, Pablo Picasso respondeu com ironia: “Não, foram vocês.” De maneira única, o quadro pintado em 1937 não só retrata os horrores da devastação como também chama à atenção e à reflexão sobre o sofrimento humano durante a preparação e execução de conflitos e guerras.
Devido às recentes polêmicas envolvendo membros ativos e ex-integrantes da instituição, bem como à crescente polarização que assola o Brasil, o Exército Brasileiro tornou-se parcialmente invisível aos olhos dos médicos e estudantes de medicina. Dessa forma, estes se distanciaram dos militares, bem como de seu estilo de vida e sofrimento únicos.
Guardando respeito absoluto pela vida humana e não permitindo que considerações de religião, raça, política ou posição social interfiram no dever para com os pacientes, surge, dentro dos quartéis, a figura do médico militar.
O médico militar tem como principal função prestar atendimento médico direto aos militares, realizando consultas, diagnósticos e tratamentos, assegurando que os combatentes estejam em condições físicas adequadas para o cumprimento de suas funções. Entretanto, devido à complexidade da instituição e às atividades exercidas nas diversas organizações militares brasileiras, cabem também ao médico funções como suporte em operações militares, gestão de insumos, assessoria técnica aos comandantes e capacitação da tropa.
O acompanhamento e as atividades exercidas pelo médico em âmbito militar, por vezes, se opõem ao contexto em que ele próprio se encontra, devido ao alto risco das atividades realizadas pela tropa e às exigências constantes de superação de limites pessoais (físicos e psicológicos), além da disponibilidade permanente para o emprego da força.
Entretanto, é exatamente neste cenário de abnegação, onde a impessoalidade é imperativa e o êxito da missão é inegociável, que a Slow Medicine se torna uma aliada importante e indispensável para a garantia da higidez física e psicológica de todos os militares.
À medida que a medicina praticada em quartéis oferece inúmeros desafios, também proporciona inúmeras oportunidades. Em geral, a quantidade de militares que trabalham na organização militar durante um ciclo completo do ano de instrução dos recrutas permanece praticamente a mesma, sendo possível o fácil reconhecimento da história de cada um e a criação de vínculos de empatia devido ao convívio diário.
De certa forma, o efetivo da organização militar se torna a população adscrita ao médico da unidade. Entretanto, diferente da população adscrita de uma Unidade Básica de Saúde, é possível ter acesso às particularidades da vida laboral e social de cada indivíduo, assim como interferir de maneira rápida e efetiva em prol da saúde mental e física de cada um.
Dentro do quartel, apesar do cenário, é possível identificar com maior facilidade as dificuldades e potencialidades de cada paciente e acompanhá-los durante a execução do plano de tratamento, além de realizar ajustes imediatos, busca ativa eficaz e receber feedbacks quantitativos e qualitativos das intervenções realizadas.
A medicina de guerra, socialmente, é uma prática de compaixão em meio ao caos. É fundamental refletir que a presença de um médico dentro de um quartel dificilmente se destina apenas às necessidades do oficialato ou a medidas puramente administrativas. O Exército Brasileiro é, em essência, uma instituição popular, onde a grande massa de atendimentos realizados pelo médico militar é destinada a jovens de dezoito anos, provenientes de um extrato socioeconômico de dificuldade financeira e familiar, que, de certa forma, encontram no médico do batalhão a única via de acesso a uma saúde eficaz e humanizada, bem como um momento único onde serão tratados sem discriminação de patente, cargo ou função.
Ser médico militar é ter a certeza de que o exemplo e até mesmo os mínimos esforços impactarão a vida de centenas de pessoas. Ser médico militar é ter como principal missão assegurar a dignidade humana, a saúde e a vontade de viver daqueles que juraram entregar a própria vida em nome da pátria.
Plantar em terreno aparentemente infértil é um exercício de fé, mas a colheita depende da capacidade que cada um tem de transformar o solo. São nos cenários menos prováveis e mais difíceis de alcançar que a luta por uma medicina mais justa, sóbria e respeitosa se torna necessária.
Imagem que ilustra o post: Guernica, de Pablo Picasso
Victor Gouveia Ferreira de Aguiar: Médico residente em Medicina de Família e Comunidade; Tenente do Exército Brasileiro; Membro do Students and Trainees Advocating for Resource Stewardship Brasil (STARS Brasil) e fundador do grupo de estudos Slow Medicine – UNIPÊ.
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