
Por Marcelo Marcucci
“Apresse-se lentamente…” (em latim, Festina Lente)
O provérbio, atribuído ao imperador romano Otavio Augusto, carrega um antagonismo que combina urgência com cautela. A ideia básica é que podemos buscar a eficiência sem comprometer a qualidade, evitando erros causados pela pressa desmedida.
Este axioma se aplica a diversas áreas da vida, e cabe muito bem na prática da Odontologia. Muitas vezes, em momentos de dor e sofrimento, o cirurgião-dentista é demandado para uma ação rápida e pontual. A premência necessária no contexto agudo, por sua vez, não deve implicar na despersonalização do paciente, como se o paciente fosse um apenas um corpo-máquina a ser reparado.
Historicamente, a Odontologia, por suas peculiaridades assistenciais (proximidade física com o paciente, múltiplas consultas, etc…) constrói naturalmente um cenário de acolhimento, criando condições para uma relação paciente – profissional apoiada em vínculos empáticos sólidos. Porém, tal qual na Medicina, fala-se cada vez mais em “desumanização” da prática odontológica, uma realidade que impacta não apenas na experiência e no bem-estar do paciente, mas também na satisfação e na motivação do próprio cirurgiãodentista1. O grande avanço tecnológico das últimas décadas trouxe à Odontologia um vasto repertório de técnicas e tratamentos, mas se por um lado conseguimos sucessos clínicos sem precedentes, por outro lado observamos uma forte tendência à perda do cuidado humanizado. Entregamos cada vez mais tecnologia, mas estamos desaprendendo a capacidade de escutar…
E por que isto ocorre? A lógica do rendimento e da produtividade, dentro de um modelo de gestão que privilegia metas de produção – número de consultas diárias, atendimentos protocolizados e, em último desdobramento, a lucratividade rápida. Esse enfoque quantitativo pressiona o cirurgião-dentista a encurtar o tempo de cada procedimento, transformando o ato clínico em uma sequência de etapas “assépticas” e padronizadas. O paciente passa a ser apenas um “caso”, em detrimento de suas queixas, medos e necessidades emocionais. O avanço tecnológico é claramente bem-vindo e trouxe ferramentas extraordinárias, como scanners digitais, softwares de planejamento, entre outros exemplos. Porém, sem adaptá-los ao contexto individual, cria-se um atendimento uniformizado que desconsidera diferenças culturais, socio-econômicas e psicossociais dos pacientes. Soma-se a isso a emergência da estética como valor padrão da nossa sociedade moderna, a cultura do “sorriso perfeito” amplificada pelas mídias digitais, que muitas vezes vendem um ideal inatingível de beleza ampliando o ciclo de desejos frustrados. Isso leva a descompassos, em diversos níveis, na relação paciente-profissional. O modelo desumanizado tende a exacerbar a ansiedade do paciente e frustrar suas expectativas: a falta de diálogo empático e de explicações claras gera insegurança, elevando o estresse e, em casos extremos, levando à evasão de tratamentos e a demandas judiciais. E os profissionais não ficam incólumes: cirurgiões-dentistas submetidos a rotinas extenuantes e despersonalizadas podem desenvolver o tão temido burnout, fadiga emocional e retraimento profissional, ampliando o ciclo de dessensibilização em relação ao outro.
A desumanização pode, entre outros problemas, gerar um conflito ético: até que ponto o compromisso com a eficiência e a modernidade pode se sobrepor à obrigação de respeitar a dignidade e a singularidade de cada indivíduo? O Código de Ética Odontológica2 exige que o profissional observe as necessidades clínicas e sociais do paciente, mas a pressão por resultados pode levar à flexibilização de princípios básicos, como o consentimento verdadeiramente informado e o respeito às expectativas reais de cada pessoa.
Voltando ao axioma do imperador Otavio Augusto: estamos nos apressando, mas onde está a desaceleração necessária para a conexão interpessoal?
Caminhos para a desaceleração
Para mitigar esse quadro, é fundamental ações para o resgate de práticas que valorizem o vínculo profissional-paciente. A paciência e o cuidado podem levar a resultados mais sólidos e duradouros. Podemos iniciar pelo momento do acolhimento: receber o paciente com cordialidade, chamando-o pelo nome, e proporcionando um ambiente físico confortável. Estes pequenos detalhes reduzem a ansiedade, particularmente nos pacientes de primeira consulta. Uma vez no ambiente clínico, desenvolva a prática de escuta ativa, incentivando o paciente a falar sobre suas expectativas, receios e histórico de forma livre. Lembrando Carl Rogers3, este é o momento onde o terapeuta entra em relação pessoal e subjetiva com seu paciente. O profissional deve adotar a comunicação clara e acessível, evitando jargões técnicos, explicando os procedimentos através de comparações simples, entremeando pausas intencionais para que o paciente reflita e organize seu entendimento sobre o que foi dito. Para melhorar esta comunicação, podemos lançar mão de modelos anatômicos, desenhos ou imagens digitais para ilustrar diagnósticos e planos de tratamento, tornando o conteúdo mais palpável. No final, confirme oque foi compreendido, apresente seus riscos, benefícios e alternativas de modo equilibrado, garantindo que o paciente se sinta parte da decisão. Use conscientemente a tecnologia: quando for necessário usar o computador ou equipamentos tecnológicos, combine alternância entre olhar para a tela e para o paciente, explicando o que está fazendo e como isto pode auxiliar na obtenção de melhores resultados. E para que todo este processo se desenrole, planeje o tempo adequado por consulta: preveja intervalos que permitam o diálogo e o exame completo, sem transmitir para o paciente a sensação de pressa.
A formação humanística como complemento a formação técnica é fortemente recomendada neste contexto. As Humanidades compõem um agrupamento de conhecimentos sobre artes, literatura e ciências humanas voltadas para a área da saúde, que surgiram como contraponto à excessiva tecnologização da saúde4. Seu pressuposto é auxiliar o profissional da saúde a desenvolver conhecimentos além dos saberes técnicos, suportados nas ciências humanas e humanidades, e que permitam interagir com o paciente em todas as suas dimensões: espirituais, éticas, psíquicas, culturais e sociais. A aproximação de elementos das ciências sociais e humanas aplicadas (Filosofia, Antropologia, História), as artes nas suas mais variadas expressões (visuais, musicais, literatura), ajudam a refletir o fenômeno saúde x doença como experiência humana multidimensional, e não apenas biológica. Experiências bem sucedidas com laboratórios de leitura, baseadas nas narrativas de vida sem necessariamente estar diretamente relacionadas com a doença, podem servir como treinamento para reforçar a escuta empática dos pacientes, e empregá-lo como recurso na relação paciente-profissional.5
Finalizando
A Odontologia sem pressa significa ir além do procedimento técnico: é reconhecer cada paciente como indivíduo único, com histórias, emoções e expectativas. Ao investir em escuta, comunicação clara, ambiente acolhedor e formação socioemocional, o profissional fortalece a confiança, melhora a adesão aos tratamentos e resgata o sentido de cuidado que torna a prática odontológica verdadeiramente transformadora.
Bibliografia:
1.Marcucci, M., & Gallian, D. M. C. (2023). A formação humanística para estudantes e profissionais da Odontologia: uma dimensão esquecida. Revista Da ABENO, 23(1), 1871. https://doi.org/10.30979/revabeno.v23i1.1871
2. Código de Ética Odontológico. Conselho Federal de Odontologia. Resolução CFO nº 118, de 11 de maio de 2012. Diário Oficial da União. Brasília, 14 junho 2012; Seção 1, nº 114. p. 118
3. Rogers, Carl R. (1997). Tornar-se pessoa. 5ª ed. São Paulo: Martins Fontes.
4. Charon R, Banks JT, Connely JE, Hawkins AH, Hunter KM, Jones AH, et al. Literature and medicine: contributions to clinical practice. Ann Intern Med[Internet]. 1995;122(8):599-606. doi: https://doi.org/10.7326/0003-4819-122-8-199504150-00008
5. Gallian DMC. Literatura e formação humanística em medicina: o experimento do Laboratório de Humanidades da EPM/UNIFESP. Rev Med[Internet]. 2012; 91(3):174-177. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/revistadc/article/view/58979/61965
Marcelo Bernardi Marcucci: Sou cirurgião-dentista formado pela FOUSP, pós-graduado na USP e na UNIFESP. Exerço minhas atividades no Serviço de Estomatologia do Hospital Heliópolis – SUS, e em consultório privado, ambos em São Paulo. Atualmente sou graduando em Filosofia e pesquisador da área de Humanidades Médicas.
Obrigada pelo texto lindo e necessário! A Odontologia precisa virar a chave da lógica de procedimentos e esse movimento não pode esperar !
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